Churrasco da Copa: Por que a carne bovina sai de cena e o frango dispara nos preços
A expectativa de ver as churrasqueiras acesas durante a Copa do Mundo de 2026 está acompanhada de um sinal de alerta para o bolso dos brasileiros: o custo do churrasco tradicional

A expectativa de ver as churrasqueiras acesas durante a Copa do Mundo de 2026 está acompanhada de um sinal de alerta para o bolso dos brasileiros: o custo do churrasco tradicional está subindo, e a carne bovina, estrela das festas, pode dar lugar ao frango. Entre a alta dos preços da carne vermelha, o endividamento das famílias e as mudanças nos hábitos alimentares, o mercado de proteínas está passando por uma reviravolta que pode redefinir o cardápio das próximas celebrações esportivas.
Aumento dos preços: bovinos à vista e frango em alta
Nos últimos 12 meses, o preço médio do quilo da carne bovina superou R$ 140, um salto de cerca de 28 % em relação ao mesmo período de 2023, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O aumento foi impulsionado pela combinação de fatores climáticos adversos nas principais regiões produtoras – sobretudo na Bacia do Rio Grande – e pelo encarecimento dos insumos de produção, como fertilizantes e ração.
Em contraste, o frango, que já era a carne mais consumida pelos brasileiros (representando 28 % do consumo total de proteínas animais, de acordo ao IBGE), viu seu preço subir menos que 12 % no mesmo intervalo, ainda que a tendência seja de alta gradual, já que os custos de energia e de matéria‑prima também impactam os granjas. Essa diferença de ritmo de valorização torna o frango a alternativa mais “amigável” ao bolso nas festas de maio e junho, quando o país receberá partidas decisivas da Copa.
A projeção da Abec (Associação Brasileira das Empresas de Carnes) indica que, até o final de 2026, o frango pode chegar a representar até 35 % do consumo total de carnes no Brasil, enquanto a participação da carne bovina pode recuar para menos de 30 %. Essa inversão não é apenas numérica; reflete uma mudança estrutural no padrão de consumo, que tem raízes no endividamento das famílias.
Endividamento das famílias: o freio ao apetite
O último levantamento do Banco Central, divulgado em fevereiro de 2026, aponta que o endividamento das famílias brasileiras atingiu 71,4 % da renda líquida média, o maior patamar da última década. A alta dos juros – que oscilaram entre 10,75 % e 12,5 % ao ano no período – fez com que o crédito ao consumidor se tornasse mais caro, reduzindo o poder de compra e forçando reajustes no orçamento doméstico.
Em um cenário de apertos, os consumidores tendem a priorizar itens essenciais, como alimentos básicos e energia, deixando de lado produtos considerados “luxo” ou “premium”, como cortes nobres de carne bovina. Segundo pesquisa da NielsenIQ, 63 % das famílias que reduzem gastos alimentares optam por trocar carne vermelha por frango ou proteína vegetal.
Essa mudança de comportamento tem reflexos imediatos nos estabelecimentos de carnes. Supermercados da região Sudeste relataram queda de 17 % nas vendas de picanha e contrafilé nos últimos seis meses, enquanto a demanda por coxas e sobrecoxas de frango cresceu 22 %. Na zona sul do Rio de Janeiro, churrasqueiros profissionais começaram a oferecer “pacotes de frango premium”, incluindo peito temperado e asa ao molho de mostarda e mel, como alternativa ao tradicional churrasco de carne bovina.
O impacto na cadeia produtiva e nas exportações
A escalada dos preços da carne bovina afeta não só o consumidor final, mas toda a cadeia produtiva. Pecuaristas já sinalizam dificuldades para repor o rebanho, dado o alto custo dos insumos e a necessidade de investimentos em tecnologia de manejo para melhorar a eficiência. Segundo a Embrapa, o custo de produção de um arroba de carne bovina subiu 15 % entre 2023 e 2025, pressionando margens já estreitas.
Por outro lado, a demanda crescente por frango abre oportunidades para o setor avícola. A Associação Brasileira de Avicultura (ABPA) estima que, se a tendência de substituição se confirmar, o faturamento do segmento pode crescer 9 % ao ano até 2028, atingindo US$ 27 bilhões. Essa alta beneficiará especialmente os produtores do Norte e Nordeste, regiões onde a produção avícola tem se consolidado nos últimos anos.
No plano de exportações, o Brasil já é líder mundial em carne bovina, mas enfrenta concorrência crescente da Austrália e dos Estados Unidos, que conseguem oferecer preços mais competitivos graças a menores custos de produção. O aumento interno dos preços pode reduzir a competitividade das exportações brasileiras, já que os exportadores tendem a direcionar a produção para o mercado interno quando os preços domésticos são elevados. Em 2025, as exportações de carne bovina caíram 4,3 % em volume, segundo o Ministério da Agricultura, enquanto as exportações de frango cresceram 5,8 %, principalmente para a China e Oriente Médio.
América Latina: um padrão que se répete
A mudança de preferência por frango não se limita ao Brasil. Na Argentina, tradicionalmente dependente da carne bovina, o preço da carne aumentou 24 % em 2025, enquanto o frango subiu apenas 9 %. Dados da Cámara Argentina de la Industria de Alimentos revelam que o consumo per capita de frango já ultrapassou o da carne bovina em agosto de 2025. O mesmo padrão tem sido observado no Chile e no Uruguai, onde políticas de estímulo à produção avícola e a alta dos custos de ração tornaram o frango a carne mais acessível nas mesas.
Esse movimento tem implicações macroeconômicas. O aumento da demanda por frango impulsiona investimentos em infraestrutura de processamento e logística, gerando empregos e ampliando a base exportadora. Por outro lado, regiões dependentes da pecuária podem enfrentar pressões sociais, visto que a pecuária ainda representa uma parcela significativa do PIB rural em países como Paraguai e Bolívia.
Perspectivas futuras: o que esperar para o churrasco da Copa?
Com a Copa do Mundo programada para iniciar em junho de 2026, o cenário indica que o tradicional churrasco de carne bovina poderá ser “reformulado”. Analistas do Itaú BBA preveem que, até o fim de 2026, o preço médio do quilo da carne bovina pode ultrapassar os R$ 160, enquanto o frango deverá se estabilizar em torno de R$ 24 a R$ 26, dependendo da região.
Para os consumidores, a alternativa pode ser combinar carnes: usar cortes menores de bovino (como alcatra) em menor quantidade, complementados com frango e linguiça suína, que tem mantido preços relativamente estáveis (cerca de 5 % de alta nos últimos 12 meses). Restaurantes e bares já estão testando “mix de grelhados”, oferecendo menus que mesclam diferentes proteínas a preços mais equilibrados.
Do ponto de vista governamental, o Programa de Incentivo à Produção de Carnes Magras (PIPCM), lançado em março de 2026, busca reduzir o custo da carne bovina por meio de subsídios a insumos e à compra de sêmen de alta performance. Se bem executado, pode frear a escalada de preços, mas dependerá de aprovação de recursos no Orçamento Federal, atualmente pressionado pelos gastos com saúde e educação.
Em resumo, a combinação de preços elevados da carne bovina, alto endividamento das famílias e a crescente competitividade da produção avícola está remodelando o panorama do churrasco brasileiro. Enquanto a paixão pelo futebol e pela celebração à beira da grelha permanece intacta, o que provavelmente mudará são as escolhas no espeto. Para os amantes de um bom churrasco, a dica é adaptar o cardápio, priorizar cortes mais econômicos e aproveitar a variedade de sabores que o frango e a linguiça suína podem oferecer – tudo isso sem sacrificar a festividade que acompanha a Copa do Mundo.
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
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Autor
Rodrigo SantosAcompanha indicadores econômicos, inflação e o dia a dia do mercado brasileiro com foco em explicar o impacto no bolso do cidadão.
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