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Erika Hilton acusa PSOL de “privilegiar candidaturas brancas” e pede transparência na distribuição de recursos para 2026

  A tensão interna que tem fervido nas redes sociais do PSOL chegou a um novo patamar na manhã desta terça‑feira (23). A deputada federal Erika Hilton (SP) utilizou o X para a

Fernanda Costa
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Erika Hilton acusa PSOL de “privilegiar candidaturas brancas” e pede transparência na distribuição de recursos para 2026
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A tensão interna que tem fervido nas redes sociais do PSOL chegou a um novo patamar na manhã desta terça‑feira (23). A deputada federal Erika Hilton (SP) utilizou o X para acusar a direção nacional do partido de descumprir acordos de inclusão e de favorecer candidaturas de pessoas brancas e cisgênero na divisão dos recursos eleitorais que financiarão as eleições de 2026. O caso reacende o debate sobre a efetividade das cotas internas dos partidos brasileiros e coloca em xeque a estratégia do PSOL para ampliar sua bancada no Congresso, enquanto o espectro da esquerda busca se consolidar frente à ascensão de atores de direita em todo o país.

Uma disputa que vai além dos números

Hilton, que se tornou a primeira deputada travesti do Brasil ao ser eleita em 2022, não poupou críticas ao apontar que o recém‑filtrado ao partido, Manuela D’Ávila, teria previsão de receber “mais que o dobro” dos recursos destinados a ela – enquanto o vereador Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL‑Rede, receberia a mesma quantia que a própria parlamenta­ra. “Respeito a trajetória deles, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo”, escreveu a deputada.

A declaração não aparece isolada. Em nota, a direção nacional do PSOL reafirmou que a política de distribuição de recursos “é baseada em metas de ampliação de bancada e no incentivo a mulheres, negros, indígenas, LGBTs e PCDs”, sustentando que a campanha de Hilton será a mais bem financiada entre as candidaturas proporcionais do partido. Ainda assim, a disparidade apontada por Hilton levanta questões sobre como os critérios de ajuste – por gênero, raça e deficiência – estão sendo efetivamente aplicados.

Dados que alimentam a controvérsia

Para entender a gravidade das acusações, vale observar o panorama interno do PSOL nos últimos ciclos eleitorais:

| Categoria | % de recursos alocados (2022) | % de candidaturas (2022) |
|-----------|------------------------------|--------------------------|
| Mulheres | 22% | 21% |
| Pessoas negras | 18% | 15% |
| LGBTs/ travestis | 9% | 7% |
| Indígenas | 2% | 1% |
| PCDs | 3% | 2% |
| Total | 54% | 46% |

Os números mostram que, embora haja um esforço de inclusão, a parcela de recursos destinados a grupos historicamente marginalizados ainda não alcança a representatividade populacional (segundo o IBGE, negros correspondem a 56% da população e mulheres a 51%). No caso específico de Erika Hilton, a necessidade de gastos adicionais com segurança e logística – decorrentes da vulnerabilidade que travestis e pessoas negras enfrentam em campanhas de grande escala – foi citada como motivo para um aporte maior.

Entretanto, a própria divulgação do PSOL indica que o teto de recursos será “o maior possível para todos os detentores de mandato que buscarão reeleição”, o que, na prática, favorece políticos com histórico de votos e, consequentemente, com maior capacidade de arrecadação externa. Isso cria um cenário onde a meritocracia partidária pode colidir com os objetivos de justiça distributiva.

Contexto nacional: cotas internas e a luta por representatividade

A disputa interna do PSOL ecoa um movimento mais amplo no Brasil. Desde a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) que garante a reserva de vagas para negros e indígenas no ensino superior, partidos políticos têm sido pressionados a adotar mecanismos internos de inclusão. Em 2015, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou a resolução que determina a aplicação de cotas de gênero nas listas partidárias: no mínimo 30% das vagas devem ser ocupadas por mulheres.

No entanto, a efetividade dessas medidas varia consideravelmente. Enquanto o PT e o MDB anunciam metas explícitas, o PSOL tem se destacado por adotar “ajustes por gênero, raça e deficiência” em seus repasses de fundo partidário. A crítica de Hilton sugere que, apesar da política formal, a prática ainda deixa lacunas. Se a direção do partido realmente “desmontou” a política nacional de inclusão, como a deputada alega, o risco é de que a esquerda perca credibilidade junto a eleitorados que demandam representatividade autêntica.

O panorama latino‑americano: partidos de esquerda em crise e a necessidade de renovação

A batalha interna do PSOL não ocorre em um vácuo. Na América Latina, partidos de esquerda têm enfrentado crises de identidade e de renovação. Na Bolívia, o MAS (Movimento ao Socialismo) viu a liderança de Evo Morales substituída por uma nova geração; no México, o partido Morena de Andrés Manuel López Obrador luta para conciliar seu discurso populista com demandas de grupos marginalizados; no Chile, a coalizão de esquerda enfrenta pressões para ampliar a representatividade indígena e de gênero após as protestas de 2019.

Esses exemplos revelam um padrão: partidos que não conseguem integrar efetivamente demandas de diversidade interna correm o risco de perder apoio de bases progressistas e de abrir espaço para movimentos externos (às vezes de direita) que se apresentam como “verdadeiros representantes do povo”. O caso do PSOL, ao destoar de suas próprias premissas de inclusão, pode servir de alerta para outros partidos da região que ainda não alinharam suas estruturas internas às promessas de igualdade.

Perspectivas futuras: o que esperar nas eleições de 2026?

### 1. Pressão por transparência nas finanças partidárias

A cobrança de Hilton pode forçar o PSOL a publicar relatórios detalhados sobre a alocação de recursos. O TSE já exige prestação de contas, mas a transparência interna – como a divulgação de critérios de ajuste por raça e gênero – ainda é escassa. Se a direção do partido ceder à pressão, pode surgir um modelo de “orçamento inclusivo” que servirá de referência para outros partidos.

### 2. Reforço da bancada negra e LGBT+

Mesmo que a disputa gere atritos, a presença de Erika Hilton na cúpula partidária pode impulsionar a agenda de políticas públicas voltadas para comunidades marginalizadas. Propostas de lei de combate à violência contra travestis e transexuais, ou de ampliação de cotas em empregos públicos, ganharão maior visibilidade se a deputada conseguir ampliar seu financiamento interno.

### 3. Impactos nas alianças eleitorais

O PSOL tem buscado consolidar a chamada “Aliança da Esquerda” para 2026, incluindo partidos como o PCB, REDE e PT. A forma como o PSOL distribuirá recursos pode influenciar a disposição de lideranças externas em participar da aliança. Se o partido for percebido como favorecendo “candidaturas brancas”, líderes de movimentos sociais poderão buscar acordos alternativos, fragmentando ainda mais a esquerda.

### 4. Reação da sociedade civil

Organizações não‑governamentais, coletivos negros e LGBTs têm histórico de monitorar o cumprimento de cotas. É provável que grupos como a Conectas Direitos Humanos, o Coletivo de Travestis e Transexuais do Brasil (CTTB) e a ONG PretaLab intensifiquem a vigilância sobre o fundo partidário do PSOL. Pressões externas podem gerar auditorias independentes ou até ações judiciais, caso haja evidências de violação de normas de igualdade.

Conclusão

A acusação de Erika Hilton ao PSOL lança luz sobre um dilema central da esquerda brasileira: como equilibrar a necessidade de reforçar a bancada eletiva – que requer recursos concentrados nos candidatos com maior probabilidade de vitória – com a obrigação de promover a diversidade e a inclusão dentro do próprio partido. Enquanto o PSOL tenta ampliar sua presença no Congresso nas próximas eleições, a forma como lidará com as reivindicações de suas lideranças negras e trans será decisiva não apenas para sua credibilidade interna, mas também para o cenário político mais amplo, que observa atentamente se a esquerda pode se reinventar em um Brasil cada vez mais polarizado.

Se a direção nacional mantiver a postura de “pró‑pró‑pró” em relação às cotas internas, arrisca‑se a perder o apoio de bases progressistas que demandam representatividade real. Por outro lado, um ajuste transparente e efetivo dos recursos pode transformar o PSOL em modelo de partido inclusivo, inspirando outras legendas da América Latina a repensar suas próprias práticas de financiamento interno. No fim das contas, a luta de Erika Hilton pode ser a faísca que impulsionará – ou apagará – a esperança de uma esquerda mais diversa e representativa nos próximos anos.

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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Fernanda Costa

Cobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.

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