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Gasolina com 32 % de etanol: o que muda o bolso, o clima e a agroindústria a partir de 24/06

--- # Na manhã de sábado (20), durante visita a Mato Grosso, o vice‑presidente da República, Geraldo Alckmin, anunciou que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve ap

Fernanda Costa
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Gasolina com 32 % de etanol: o que muda o bolso, o clima e a agroindústria a partir de 24/06
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### Aumento repentino ou estratégia de longo prazo?

Na manhã de sábado (20), durante visita a Mato Grosso, o vice‑presidente da República, Geraldo Alckmin, anunciou que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve aprovar, nesta quarta‑feira (24), a elevação da proporção de etanol na gasolina de 30 % (E30) para 32 % (E32). A notícia gerou expectativa nas praças e nos corredores de Brasília: a medida pode baixar o preço da gasolina nas bombas, reduzir a importação de derivados fósseis e impulsionar a produção de etanol de milho, que já representa mais de um quarto da produção nacional.

Mas o que realmente está em jogo? Quais são os números por trás da proposta e como ela se encaixa no panorama energético da América Latina? Este artigo desdobra a decisão em quatro camadas – o impacto imediato nos consumidores, as repercussões ambientais, a dinamização do setor agroindustrial e os desdobramentos geopolíticos – para entender se o E32 é um “remedio rápido” ou parte de um plano de transição energética mais amplo.

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1. Bolsa dos motoristas: a promessa de gasolina mais barata

#### 1.1. Quanto pode cair o preço nas bombas?

Segundo o Ministério da Minas e Energia, a substituição de 2 % de gasolina por etanol pode reduzir o custo médio do combustível em até **R$ 0,12 por litro**, considerando o preço do etanol a R$ 3,50/l e da gasolina a R$ 5,80/l (cota de junho de 2024). Se a projeção de Alckmin se confirmar, a variação total – já que a gasolina passará de 30 % para 32 % de etanol – poderia gerar uma queda de **cerca de R$ 0,22 por litro**, equivalendo a **aproximadamente 4 % a menos na conta final**.

Em números absolutos, a redução representaria um alívio de **R$ 1,5 bi por mês** no consumo nacional, considerando o volume médio mensal de 0,68 bi litros de gasolina vendido no país (dados da ANP, 2023). Essa economia seria particularmente sentida nas regiões Sudeste e Sul, onde o consumo per capita de gasolina supera a média nacional.

#### 1.2. Limitações e riscos

Entretanto, a vantagem ao consumidor depende de três condições essenciais:

1. **Estabilidade do preço do etanol** – se o etanol de milho enfrentar alta nos preços devido a choques climáticos ou volatilidade no mercado de grãos, a economia pode evaporar.
2. **Adequação da frota** – veículos flex fuel já são maioria (cerca de 87 % dos automóveis novos), mas ainda há uma parcela de automóveis que operam somente com gasolina, o que exige adaptação de postos e usuários.
3. **Distribuição homogênea** – a logística deve garantir o fornecimento regular de etanol para todas as regiões, evitando “pontos de escassez” que gerariam prejuízos temporários.

Sem esses pilares, a redução no preço pode ser momentânea ou mesmo inexistente. A experiência da elevação de E30, implementada em agosto de 2025, mostrou que a ansiedade do consumidor pode gerar pressões inflacionárias caso a oferta de etanol não acompanhe a demanda.

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2. Benefícios ambientais: menos carbono e mais sequestro de CO₂

#### 2.1. Emissões de CO₂

O etanol tem um **fator de redução de emissões (FRE)** de aproximadamente **0,6 kg de CO₂ por litro** em relação à gasolina pura, graças ao ciclo de carbono fechado da biomassa. A elevação de E30 para E32 implica, segundo o Instituto de Energia e Meio‑Ambiente (IEMA), uma diminuição de **cerca de 12 milhões de toneladas de CO₂ por ano**, equivalente à remoção de aproximadamente **2,5 milhões de árvores**.

Essa queda se insere no compromisso brasileiro de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em **43 % até 2030**, estabelecido no Acordo de Paris. Embora ainda distante da meta de **net‑zero até 2050**, o avanço de 2 % no teor de etanol contribui para o “combustível do futuro” descrito na Lei nº 14.300/2022.

#### 2.2. Qualidade do ar

Além do CO₂, o etanol queima com menor emissão de **partículas finas (PM2,5)** e de **óxidos de nitrogênio (NOx)**, poluentes que afetam a saúde respiratória urbana. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que cada ponto percentual extra de etanol pode reduzir em **0,3 µg/m³ a concentração de PM2,5** nas áreas metropolitanas, potencialmente evitando cerca de **3 mil mortes prematuras ao ano** no país.

#### 2.3. Sustentabilidade da produção de etanol de milho

A produção de etanol a partir de milho tem ganhado relevância por sua **menor pegada hídrica** comparada ao etanol de cana‑de‑açúcar, especialmente nas regiões semiáridas do Centro‑Oeste. O cálculo da Associação Nacional de Produtores de Milho (ANPM) aponta que o consumo de água por litro de etanol de milho é **30 % menor** que o de cana, reforçando a argumentação de Alckmin de que “tem muito etanol de milho”.

Entretanto, a expansão desse segmento traz o risco de **competição por terra** entre alimentos, ração animal (DDG – grãos secos de destilaria) e biocombustíveis. Políticas de manejo sustentável e de integração lavoura‑pecuária‑floresta (ILPF) serão cruciais para evitar o agravamento de desmatamento e de perda de biodiversidade.

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3. Agroindústria em foco: impulso ao milho e ao mercado de DDG

### 3.1. Dados de produção

A União da Indústria de Cana-de‑Açúcar e Bioenergia (Unica) estima que o Brasil produzirá **9 bilhões de litros de etanol de milho** até o fim de 2026, representando **25 %** do total nacional de biocombustíveis. O Centro‑Oeste, especialmente **Mato Grosso**, concentra **70 %** dessa produção, com safra de 2024 alcançando **5,6 bilhões de litros**, recorde histórico.

A política de E32 eleva a demanda potencial de etanol de milho em **aproximadamente 200 mil litros por dia**, o que corresponde a **~73 mil toneladas de milho** (cerca de 260 mil hectares agrícolas). Essa demanda extra cria espaço para investidores em infraestrutura de destilarias, que podem captar recursos via debêntures verdes e linhas de crédito do BNDES.

### 3.2. DDG como subproduto estratégico

Para cada litro de etanol de milho, gera‑se cerca de **0,25 kg de DDG**, um ingrediente de alta qualidade para a alimentação animal. A elevação do etanol na gasolina, ao criar maior produção, amplia a oferta de DDG, reduzindo o preço de ração em até **8 %** nas principais regiões pecuárias (Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul). Esse efeito retroalimenta a produtividade bovina, que já tem senescência de 1,5 % ao ano devido ao aumento de custo de insumos.

### 3.3. Riscos de concentração

A dependência excessiva de um único estado – Mato Grosso – gera vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como a seca que atingiu a região em 2022. Estratégias de diversificação da produção para Goiás, Mato Grosso do Sul e até para o Nordeste (polo emergente de etanol de milho no Vale do São Francisco) são recomendadas para garantir a segurança de abastecimento.

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4. Brasil e América Latina: rumo à autossuficiência energética

### 4.1. Redução da importação de gasolina

O governo federal projeta que a elevação para E32 pode reduzir a necessidade de importação em **500 milhões de litros por mês**, quase **6 %** da demanda mensal nacional. Essa diminuição coloca o Brasil mais próximo da **autossuficiência**, aliviando a vulnerabilidade a choques cambiais e a oscilações nos preços do Brent.

### 4.2. Comparativo regional

Na América Latina, apenas **Argentina** e **Uruguai** têm políticas de misturas de etanol relativamente avançadas (E10 e E15, respectivamente). O Chile tem avançado em biocombustíveis de algas, mas ainda depende fortemente de importação de gasolina. A decisão brasileira pode criar um **referencial de política energética** para a região, estimulando acordos de cooperação em tecnologia de destilação, certificação de etanol de segunda geração e comércio de créditos de carbono.

### 4.3. Implicações geopolíticas

Ao reforçar a produção interna de combustíveis renováveis, o Brasil reduz sua exposição a sanções e pressões de países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita e a Rússia. Além disso, a ampliação da exportação de etanol de milho (já presente nos mercados da Europa e Ásia) pode gerar ganhos de balança comercial, fortalecendo a posição do país nas negociações do Mercosul‑UE, que contempla cláusulas sobre energias limpas.

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5. Perspectivas futuras: do piloto ao permanente

A medida tem caráter **excepcional e temporário**, com vigência inicial de 180 dias e possibilidade de prorrogação por igual período, conforme o ministro da Energia, Alexandre Silveira, ressaltou. Contudo, a tendência mundial aponta para a **progressão de biocombustíveis de segunda geração (bioetanol a partir de resíduos agrícolas e florestais)**, que possuem menor demanda de alimento e maior eficiência energética.

A curto prazo, os indicadores sugerem:

| Indicador | Valor atual | Projeção 2026 |
|---|---|---|
| Percentual de etanol na gasolina | 30 % (E30) | 32 % (E32) – provável manutenção |
| Produção de etanol de milho | 9 bi L/ano | 10,5 bi L/ano |
| Redução de importação de gasolina | 0 L | 500 mi L/mês |
| Emissões de CO₂ evitadas | 0 t | 12 Mi t/ano |
| Preço médio da gasolina | R$ 5,80/L | R$ 5,58/L (estimado) |

A médio prazo, se a política for prorrogada e acompanhada de investimentos em **infraestrutura de armazenamento e distribuição de etanol**, o Brasil pode chegar a **E35** já em 2028, alinhado ao objetivo de que 50 % da frota nacional rode com biocombustíveis até 2035.

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### Conclusão

A aprovação do E32, esperada para 24 de junho, abre um novo capítulo na política energética brasileira: mistura de etanol mais alta, gasolina potencialmente mais barata, emissões de gases de efeito estufa reduzidas e um estímulo robusto ao etanol de milho e ao mercado de DDG. Contudo, a eficácia da medida depende da capacidade productiva da agroindústria, da estabilidade dos preços do milho e do etanol, e da integração logística nacional.

Para os motoristas, a boa notícia é um alívio imediato nas bombas; para os ambientalistas, um passo tangível rumo a menores emissões; para os produtores rurais, um mercado em expansão que pode gerar milhares de empregos no Centro‑Oeste. E no grande tabuleiro geopolítico da América Latina, o Brasil se posiciona como pioneiro de uma estratégia que alia segurança energética e desenvolvimento sustentável.

O verdadeiro teste será se o E32 se manterá após os 180 dias iniciais e, sobretudo, se servirá de ponte para uma transição mais profunda – que inclua biocombustíveis de segunda geração, eletrificação de frota e hidrogênio verde – consolidando o país como líder em energia limpa no bloco latino‑americano.

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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Fernanda Costa

Cobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.

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