Kim Kataguiri abandona governo de SP para mirar novo mandato na Câmara: o que isso muda na disputa política
Kim Kataguiri, deputado federal eleito pelo PSDB em 2018 e um dos principais porta‑vozes do Movimento Brasil Livre (MBL), anunciou neste sábado (20) a desistência da pré‑candidatur

Kim Kataguiri, deputado federal eleito pelo PSDB em 2018 e um dos principais porta‑vozes do Movimento Brasil Livre (MBL), anunciou neste sábado (20) a desistência da pré‑candidatura ao governo de São Paulo pelo recém‑criado partido Missão. Em vez disso, o parlamentar vai disputar um novo mandato na Câmara dos Deputados, enquanto se prepara para integrar o “ministério da reforma de Estado” de Renan Santos, pré‑candidato à Presidência da República pela mesma legenda. A decisão reacende o debate sobre a estratégia do novo partido, a viabilidade do superministério proposto e o futuro das reformas estruturais no Brasil.
Por que Kataguiri largou a corrida para o governo paulista?
A escolha de abandonar a disputa pelo governo de São Paulo parece estar ligada a duas questões estratégicas. Primeiro, o Missão ainda não definiu um candidato próprio para o estado e, segundo, o deputado ressaltou a necessidade de “alguém na esplanada dos Ministérios com experiência no Congresso”. Em entrevista coletiva, Kataguiri explicou que a combinação de credibilidade técnica e habilidade de negociação política – algo que, segundo ele, faltou no governo Bolsonaro – é essencial para avançar reformas profundas.
> “Havia técnicos que deram credibilidade pro mercado na equipe de Jair Bolsonaro, mas a condução política por parte do Paulo Guedes foi um desastre”, afirmou.
Ao aceitar a missão de coordenar o superministério de Renan Santos, Kataguiri troca a arena estadual por uma bancada nacional, onde acredita ter mais influência para articular a agenda de reformas. O plano de Renan prevê um “superministério transversal” que reuniria Fazenda, Gestão, Planejamento, Casa Civil e Trabalho sob um mesmo comando, operando diretamente da sede da Presidência. “Seria transformar o Palácio do Planalto numa startup”, resumiu o pré‑candidato.
Dados que contextualizam a decisão
- **Pesquisa Datafolha (20/06):** Renan Santos aparece com 3% das intenções de voto no primeiro turno, ao lado de Ronaldo Caiado (PSD). O presidente Lula lidera com 41%, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) tem 31%.
- **Resultados das eleições estaduais de 2022:** O governo de São Paulo ficou com 31,7% dos votos (Tarcísio de Freitas, PSD), enquanto o PT/PMDB obteve 20,2% (Júlio César). O cenário mostra a fragilidade de candidaturas de direita sem grande estrutura partidária.
- **Apoio institucional ao Missão:** Ainda não há definição clara sobre alianças para a disputa governamental paulista. O partido declarou que não apoiará outras legendas, o que pode fragmentar ainda mais o campo da direita.
Esses números elucidam a lógica de Kataguiri: ao focar na Câmara, ele aumenta sua bagagem legislativa e tem mais chances de impactar o processo de aprovação de reformas, especialmente a previdenciária, que ele já citou como prioridade.
O que está em jogo nas reformas propostas?
### Reforma previdenciária
Kataguiri prometeu levar ao Congresso um “novo pacto” previdenciário, com meta de reduzir o déficit para menos de 0,6% do PIB. A proposta inclui:
- Idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres.
- Alíquota única de contribuição entre 11% e 13% para trabalhadores formais.
- Fim dos privilégios de “cargos especiais” e “regimes próprios” que, segundo o deputado, custam R$ 180 bilhões ao ano.
### Supersalários e gastos públicos
O deputado quer eliminar os supersalários no serviço público, medida que poderia gerar economia de cerca de R$ 30 bilhões anuais, segundo cálculos da Controladoria‑Geral da União. Além disso, propõe a revisão dos pisos constitucionais de investimento em saúde e educação, que atualmente chegam a 10% da receita corrente líquida (RCL) – um nível que, segundo críticos, prejudica a sustentabilidade fiscal.
### Superministério de reformas
A ideia de agrupar áreas estratégicas em um único órgão pretende acelerar a implementação de políticas coordenadas, reduzindo a burocracia interministerial. No entanto, especialistas apontam riscos de concentração de poder e de falta de controle parlamentar. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta que mudanças estruturais exigem amplo debate e acompanhamento da sociedade civil.
Impacto no Brasil e na América Latina
A saída de Kataguiri da disputa estadual pode sinalizar um novo padrão de atuação dos movimentos liberais na política brasileira: menos foco em governos locais e maior investimento em coalizões nacionais. Se o Missão conseguir colocar Renan Santos em uma eventual segunda volta presidencial, o superministério poderia servir de modelo para outras nações da América Latina que buscam “governança enxuta”.
Países como Chile e Colômbia já experimentam reformas tributárias e previdenciárias com apoio de tecnocratas. Uma agenda brasileira liderada por figuras como Kataguiri e Renan poderia influenciar esses processos, sobretudo ao propor um “Planalto startup”, conceito que tem ganhado adesão entre investidores de fintechs e startups da região.
Por outro lado, a resistência de sindicatos e setores progressistas permanece forte. No México, por exemplo, a tentativa de reforma trabalhista em 2023 encontrou forte bloqueio sindical, resultando em concessões que mitigaram o impacto das mudanças. Se o Brasil seguir caminho similar, os defensores da agenda liberal terão de negociar amplamente – e a presença de Kataguiri na Câmara pode ser crucial para articular tais acordos.
Perspectivas futuras
A próxima década será decisiva para o Missão e para Kataguiri. O deputado deverá lançar sua campanha para a Câmara ainda este ano, com expectativa de reforçar a bancada liberal e garantir apoio ao superministério. Ao mesmo tempo, Renan Santos precisará ampliar sua base eleitoral – atualmente em 3% – para se tornar um candidato viável nas presidenciais de 2026.
A estratégia de “tecnocracia com poder político” ainda está em teste. Caso o superministério seja efetivamente criado, o Brasil poderá vivenciar um novo modelo de gestão pública, com potencial de inspirar reformas em economias latino‑americanas que buscam crescimento com menor tamanho do Estado. Contudo, o sucesso dependerá da capacidade de conciliar expertise técnica com a arte política do Congresso, missão que Kim Kataguiri se propôs a assumir.
Em síntese, a desistência de Kataguiri da corrida ao governo de São Paulo não é um retrocesso, mas sim uma reorientação estratégica que pode mudar o rumo das reformas estruturais no Brasil e reverberar em toda a América Latina. Resta observar como o Missão, Renan Santos e o próprio deputado enfrentarão os desafios de transformar promessas de “startup no Planalto” em políticas públicas concretas.
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Fernanda CostaCobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.
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