Brasil AgoraOMEGA

Notícias do Brasil e do Mundo 24/7

Política

Trump ameaça “tarifaço” ao Brasil: o que está em jogo para a economia e a política latino‑americana?

Na manhã de 17 de junho, durante coletiva de imprensa em Évian‑les‑Bains, após a cúpula do G7, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a recente declaração do ex‑preside

Fernanda Costa
6 phút de leitura
Trump ameaça “tarifaço” ao Brasil: o que está em jogo para a economia e a política latino‑americana?
Chia sẻ:XWhatsAppFacebookLinkedIn

Na manhã de 17 de junho, durante coletiva de imprensa em Évian‑les‑Bains, após a cúpula do G7, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a recente declaração do ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como “uma coisa desaforada”. Em entrevista, Lula apontou que Trump insinuou a possibilidade de um novo “tarifaço” – medida protecionista que poderia elevar tarifas sobre produtos brasileiros, sobretudo alimentos e commodities. A reação do mandatário brasileiro abre um capítulo delicado nas relações entre Brasília e Washington, num momento em que ambos os países negociam acordos comerciais e estratégicos. O que está em jogo?

A provocação de Trump e o histórico das tarifas

Em 2018, durante seu primeiro mandato, Donald Trump impôs tarifas de 25 % sobre a soja brasileira, medida que, segundo a Associação Nacional da Indústria (CNI), provocou perda de cerca de US $ 1,5 bilhão em exportações naquele ano. Na ocasião, o Brasil recorreu ao Ministério do Comércio Exterior e à Organização Mundial do Comércio (OMC), que acabou revertendo a punição.

Agora, embora sem cargo oficial, Trump tem usado sua influência sobre alguns setores industriais norte‑americanos para pressionar por tarifas adicionais, sobretudo sobre carne bovina, açúcar e celulose. O “relatório dos EUA” citado pela imprensa americana aponta que a administração de Joe Biden teria “falhado” em proteger a indústria agrícola americana, sugerindo que Trump poderia “reavivar” políticas protecionistas caso volte ao poder em 2024.

Para Lula, a ameaça não é apenas econômica, mas simbólica: “Ele continua agindo como imperador”, destacou o presidente, que ainda reforça a necessidade de manter negociações em curso, sem recorrer a encontros bilaterais precipitadamente.

Dados concretos: o peso das exportações agrícolas

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), as exportações brasileiras de soja, carne bovina e açúcar totalizaram US $ 93,2 bilhões em 2023, representando 20 % do total das exportações do país. Os principais mercados desses produtos são a China (soja), a União Europeia (carnes) e os EUA (açúcar).

Um aumento tarifário médio de 10 % sobre esses produtos poderia reduzir a competitividade brasileira em até 12 %, segundo modelo do Banco Central de 2022, resultando em perda de aproximadamente US $ 11 bilhões em receitas de exportação. No setor de celulose, que já responde por US $ 6,8 bilhões, uma tarifa de 5 % poderia cortar 1,5 % do PIB agrícola, impactando especialmente estados como Pará e Mato Grosso.

Esses números revelam que, embora os EUA não sejam o maior comprador de soja brasileira (cerca de 2 % das exportações), a imposição de tarifas pode desencadear efeitos cascata, pressionando cadeias de suprimentos globais e reforçando a busca por novos mercados.

Contexto político e econômico na América Latina

A América Latina tem vivido um período de redirecionamento geopolítico. Enquanto a China consolida sua presença como principal parceiro comercial, os EUA buscam fortalecer alianças regionais por meio do “Summit of the Americas” e da Iniciativa de Segurança do Hemisfério Ocidental.

No Brasil, o governo Lula tem privilegiado o multilateralismo, defendendo o protagonismo da ONU na cúpula do G7 e buscando acordos que incluam transferência de tecnologia e investimento em energia limpa. A tensão com Trump pode, porém, influenciar outros países da região.

Na Argentina, que negocia um acordo de livre comércio com a UE, o risco de tarifas americanas sobre soja pode gerar pressão para alinhar políticas comerciais ao bloco europeu. No México, já inserido no USMCA, a retórica protecionista de Trump ecoa em debates internos sobre a dependência de cadeias de produção norte‑americanas.

Além disso, o Mercosul enfrenta dificuldades nas negociações com a UE, que permanecem estagnadas desde 2020. Um “tarifaço” americano pode acelerar a necessidade de o bloco buscar alternativas, possivelmente aprofundando laços com a China ou com parceiros do Pacífico.

Perspectivas futuras: caminhos possíveis para o Brasil

### 1. Diplomacia ativa e renegociação de acordos
Lula já sinalizou que, ao término das negociações atuais, não hesitará em “ligar para o Trump”. O Brasil pode usar o foro da OMC para contestar tarifas abusivas, assim como fez em 2019 contra medidas anti‑dumping chinesas. A estratégia de diversificação de mercados, intensificando a presença na Ásia e na Europa, também reduz a vulnerabilidade a pressões unilaterais.

### 2. Fortalecimento da produção interna
Para mitigar impactos de tarifas sobre alimentos, o governo pode ampliar subsídios à agroindústria, incentivar a produção de bioinsumos e ampliar a capacidade de processamento interno, criando valor agregado que compense eventuais perdas de competitividade no exterior.

### 3. Alianças regionais estratégicas
Um pacto reforçado entre Brasil, Chile e Colômbia poderia criar uma “frente agrícola” que pressione negociadores americanos a oferecer condições mais equilibradas. A criação de um fundo de defesa comercial latino‑americano, similar ao European Defence Fund, poderia financiar litígios internacionais e projetos de inovação setorial.

### 4. Aproveitamento da agenda climática
A ONU, que Lula defendeu como ator central no G7, pode servir de alavanca para projetos de descarbonização da cadeia agrícola. Caso os EUA imponham tarifas, o Brasil pode contrapartir com compromissos ambiciosos de redução de emissões, atraindo financiamento verde e suavizando sanções econômicas.

Conclusão

A “coisa desaforada” de Trump, ao insinuar um novo tarifaço, reacende uma velha disputa entre protecionismo e livre‑comércio. Para o Brasil, o risco imediato recai sobre setores agrícolas que sustentam mais de um quinto das exportações. Contudo, o cenário oferece ao presidente Lula e ao seu governo a oportunidade de reforçar a diplomacia multilateral, diversificar mercados e liderar iniciativas regionais que reduzam a dependência de políticas unilaterais norte‑americanas.

Se a negociação atual avançar sem interrupções, o Brasil poderá transformar a ameaça em catalisador de uma agenda mais soberana e sustentável, beneficiando não só a economia nacional, mas toda a América Latina, que observa atentamente os desdobramentos de um embate que, mais do que tarifário, tem contornos de poder geopolítico.

A pergunta que fica é: o Brasil saberá transformar a provocação em oportunidade antes que o “tarifaço” se torne realidade? A resposta dependerá da capacidade de Brasília de articular alianças, usar os mecanismos multilaterais e, sobretudo, manter a agenda de desenvolvimento como prioridade sobre a retórica protecionista.

Veja também

→ **Candidatos em foco: quem pode compor as coligações de Lula e Flávio Bolsonaro nos 8 maiores colégios eleitorais?**

→ Flexibilizar licenças ambientais no Pará: ameaça ou oportunidade para a Amazônia?

→ Presidenciáveis e suas apostas: quem acerta o placar Brasil × Marrocos na estreia da Copa de 2026?

Newsletter

Notícias importantes, direto no seu e-mail

Atualizações diárias sobre economia, finanças e mercados.

Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Fernanda Costa

Cobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.

Achou útil? Compartilhe:

Chia sẻ:XWhatsAppFacebookLinkedIn

Comentários

Leia também

Você encontrou o que precisava?