Zema é desconvidado de evento do Novo em SC: crise interna pode mudar o rumo da direita brasileira
O ex-governador de Minas Gerais, Rome Romeu Zema, viu o convite para o Encontro Estadual do Novo em Joinville (04/07) ser retirado após críticas ao senador Flávio Bolsonaro.

O ex-governador de Minas Gerais, Rome Romeu Zema, viu o convite para o Encontro Estadual do Novo em Joinville (04/07) ser retirado após críticas ao senador Flávio Bolsonaro. A decisão, divulgada pelo *O Globo* e confirmada pelo G1, expõe fissuras entre o partido centrista e a bancada conservadora, colocando em xeque a aliança que a direita pretende formar contra o PT nas próximas eleições.
Um convite revogado em meio a um clamor interno
A comunicação oficial do Diretório Estadual do Novo em Santa Catarina, assinada por Kahlil Elias Assib Zattar, informou que o partido optou por “não manter o convite” a Zema e ainda lançou um ultimato à equipe de comunicação do pré‑candidato: “se não houver mudança drástica e imediata, o diretório se posicionará contrariamente à indicação de Zema como candidato à Presidência”.
A justificativa, segundo o texto, seria a necessidade de “esforços voltados à união da direita brasileira” para derrotar o PT em 2026. O paradoxo, porém, reside no fato de que a medida surge exatamente após Zema ter denunciado a suposta prática de “bandido” ao afirmar que “quem anda com bandido merece ser visto com cautela”, referindo‑se ao senador Flávio Bolsonaro e ao banqueiro Daniel Vorcáro, preso sob investigação de lavagem de dinheiro.
A reação de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, alimentou o clima de ruptura. Em postagem nas redes, o deputado federal sugeriu um “rompimento geral” entre o PL e o Novo, caso as críticas de Zema continuem. A postura de Eduardo, aliada à decisão de Santa Catarina, evidencia que a aliança entre o Novo e o bolsonarismo está longe de ser sólida.
Dados que revelam a vulnerabilidade do Novo
- **Filiação**: O Novo contabiliza cerca de 75 mil filiados em todo o país, dos quais aproximadamente 12 mil estão em Santa Catarina, segundo o levantamento interno do partido divulgado em junho.
- **Apoio nas pesquisas**: Em uma sondagem do Ipec (abril/2025), o Novo aparece com 7,3 % da intenção de voto para a presidência, atrás do PL (12,5 %) e do PT (19,8 %). A queda de 1,2 ponto percentual nas intenções de voto desde o início do ano coincide com a escalada de conflitos internos.
- **Financiamento**: Em 2022, o partido recebeu doação de R $ 1 milhão do pai de Daniel Vorcáro, antes das investigações. A origem desses recursos tem surgido como ponto sensível nas discussões sobre a integridade da legenda.
Esses indicadores apontam que, apesar de um discurso liberal‑clássico, o Novo ainda depende de alianças estratégicas para alcançar relevância nacional. O afastamento de figuras como Flávio Bolsonaro pode reduzir o acesso a bases eleitorais conservadoras, ao mesmo tempo em que pode atrair eleitores cansados da polarização.
O impacto da crise nas dinâmicas da direita brasileira
### 1. **Fragmentação versus convergência**
A direita tem buscado, nas últimas eleições, consolidar um “bloco anti‑PT”. O PL, com Lula Bolsonaro (Flávio), e o próprio Novo são peças centrais desse quebra‑cabeça. A controvérsia envolvendo Zema e Flávio evidencia que a convergência ainda depende de negociações de bastidores, como promessas de cargos ou apoio financeiro. A falta de consenso pode levar a múltiplas candidaturas nos eleitores conservadores, diluindo a força de voto contra o PT.
### 2. **Desdobramentos na América Latina**
A instabilidade interna do Novo tem ecos nos partidos liberais da região. Na Argentina, o PRO enfrenta desafios semelhantes ao tentar articular alianças com setores populistas. No Chile, a coalizão de centro‑direita também tem lidado com disputas internas sobre financiamento e alianças. A dificuldade de unir a direita nas eleições brasileiras pode servir de alerta para movimentos semelhantes em países onde o espectro conservador ainda busca coesão.
### 3. **Repercussões nas próximas eleições de 2026**
Se a decisão de Santa Catarina se transformar em um precedente nacional, Zema pode enfrentar resistência de diretorias estaduais em outros polos estratégicos, como Paraná e Rio Grande do Sul, onde o PL tem grande influência. A perda de apoio institucional pode forçar o candidato a depender exclusivamente de sua reputação como gestor (governador de Minas) e de sua capacidade de arrecadar recursos de forma independente.
Perspectivas futuras: o que esperar da disputa interna
1. **Reorganização da equipe de comunicação** – O ultimato do diretório catarinense pode pressionar Zema a substituir membros críticos, como o assessor de imprensa que esteve envolvido nas declarações sobre Flávio. Tal mudança pode ainda gerar novo desgaste se for vista como “censura”.
2. **Negociação de pactos eleitorais** – É provável que o Novo busque pactos regionais com o PL para garantir vagas no Congresso, trocando apoio ao candidato presidencial por candidaturas a deputados federais e estaduais. Essas negociações podem ocorrer fora dos holofotes, mas terão impacto direto na composição da bancada e na agenda legislativa pós‑eleitoral.
3. **Repercussão nas urnas** – Caso Zema consiga manter a base de Minas e atrair eleitores desencantados do bolsonarismo, o partido pode solidificar um nicho de centro‑direita liberal. Contudo, se a divisão interna se aprofundar, o Novo corre o risco de cair abaixo de 5 % nas intenções de voto, tornando-se um “candidato spoiler” que, em eventual segundo turno, poderia ser decisivo ao direcionar seu apoio a outro candidato de direita.
Conclusão
O afastamento de Romeu Zema do evento do Novo em Santa Catarina, embora aparentemente um episódio de agenda local, expõe uma fissura estrutural na tentativa da direita brasileira de se unir contra o PT. A crítica de Zema a Flávio Bolsonaro, a pressão de Eduardo Bolsonaro e a reação do diretório catarinense mostram que convergência política ainda depende de negociação de poder, recursos e imagens públicas.
Com as eleições de 2026 se aproximando, a capacidade de superar essas divergências determinará se a direita será capaz de oferecer uma alternativa consistente ou se continuará fragmentada, permitindo que o PT recupere o protagonismo no cenário nacional e que outros países latino‑americanos observem atentamente o desenrolar desse embate interno.
*Reportagem produzida pelo BrasilAgoraOmega, 15 de junho de 2026.*
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Fernanda CostaCobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.
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