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Defesa, minerais críticos e soberania digital: os 5 grandes desafios da política externa do Brasil até 2030

&nbsp A defesa nacional acabou de se tornar o ponto de inflexão da política externa brasileira, alertou Audo Faleiro, assessor‑chefe adjunto da Presidência, durante a 2ª Conferên

Marcos Oliveira
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Defesa, minerais críticos e soberania digital: os 5 grandes desafios da política externa do Brasil até 2030
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A defesa nacional acabou de se tornar o ponto de inflexão da política externa brasileira, alertou Audo Faleiro, assessor‑chefe adjunto da Presidência, durante a 2ª Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na UFABC. Em meio à ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e ao aumento de conflitos assimétricos no planeta, o país precisa rever sua estratégia de segurança, ao mesmo tempo em que se depara com outras quatro frentes estratégicas – minerais críticos, soberania digital, crime organizado transnacional e integração regional – que definirão seu lugar no cenário internacional até 2030.

A defesa como urgência estratégica

A presença de forças norte‑americanas nas proximidades da fronteira venezuelana reacendeu o medo de vulnerabilidade geopolítica no Brasil. “A percepção de vulnerabilidade com a ação militar americana, sobretudo na região, colocou uma outra urgência para a gente lidar com esse desafio”, afirmou Faleiro. O discurso, porém, vai além de uma reação pontual: trata‑se de reconhecer que o Brasil, historicamente visto como um país pacífico, ainda não possui uma capacidade de dissuasão robusta.

### O dilema do investimento em defesa

O assessor descreve um “dilema permanente” na sociedade brasileira. De um lado, há quem acredite que a paz institucionaliza a ausência de ameaças; do outro, argumenta que a assimetria militar – Estados Unidos, China e até mesmo a Rússia – é tão grande que nenhum gasto seria suficiente para fechar o hiato. Dados do Instituto Internacional de Estratégia (IIS) apontam que, em 2023, o orçamento de defesa dos EUA ultrapassou US$ 800 bi, enquanto o Brasil destinou apenas R$ 101,6 bi (cerca de 1,2 % do PIB). Essa diferença ilustra a amplitude do desafio.

Entretanto, a experiência de conflitos assimétricos, como a guerra entre os Estados Unidos e o Irã, demonstra que “nem sempre o mais forte vence, desde que você tenha uma capacidade de dissuasão bem feita”. Para Faleiro, o Brasil deve, portanto, priorizar a modernização de suas Forças Armadas, investir em sistemas de vigilância cibernética, ampliar a cooperação em inteligência e desenvolver plataformas de defesa autônoma, sobretudo no domínio naval, onde a proteção da extensa zona econômica exclusiva (ZE) de 3,5 milhões de km² é crucial para a exploração de petróleo e gás.

Minerais críticos e terras raras: a nova corrida de recursos

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de minerais críticos, como nióbio (responsável por 98 % da produção global) e estanho, além de vastas jazidas de terras raras ainda pouco exploradas. Ainda assim, o arcabouço regulatório está “muito defasado”, segundo Faleiro, que elogiou a iniciativa de criar um Conselho Nacional de Minerais Críticos vinculado à Presidência.

### Por que isso importa?

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) estima que a demanda global por minerais críticos crescerá 40 % até 2030, impulsionada pela transição energética e pela expansão de tecnologias 5G/6G. O Brasil tem a oportunidade de transformar seus recursos em alavanca econômica e geopolítica, exportando não apenas commodities, mas cadeias de valor aprofundadas (processamento e manufatura avançada).

No entanto, a falta de políticas de incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico atrasa a concretização desse potencial. Enquanto a China investe US$ 30 bi em cadeias de produção de terras raras, o Brasil ainda destina menos de R$ 1 bi ao setor. A criação de parques industriais estratégicos e parcerias público‑privadas será decisiva para evitar a “prateleira de exportação” que mantém o país dependente de compradores externos.

Soberania digital: o Brasil ainda está fora do bonde

A era da informação trouxe às nações uma nova arena de disputa: a soberania digital. Faleiro alertou que o Brasil “ficou fora do mundo quando esse tema evoluiu mais rapidamente”. A ausência de um marco regulatório robusto sobre infraestrutura de dados, proteção de redes críticas e liderança em padrões tecnológicos compromete a posição do país nas negociações internacionais.

### Dados que revelam o atraso

* 2022: apenas 36 % das operadoras brasileiras possuíam certificação de segurança cibernética internacional (ISO 27001), contra 78 % nos EUA.
* 2023: o Brasil ocupou a 65ª posição no Índice de Segurança Cibernética da ITU, enquanto a Índia ficou em 28º lugar.

Esse cenário de vulnerabilidade pode ser explorado por potências externas que desejam penetrar mercados emergentes. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) propôs, em 2024, a criação da Estratégia Nacional de Soberania Digital (ENSD), que prevê investimentos de R$ 10 bi em data centers soberanos, certificação de cloud nacional e fortalecimento do CERT‑BR. A rapidez na implementação será decisiva para que o Brasil não se torne apenas um ponto de passagem de dados, mas um hub tecnológico regional.

Crime organizado transnacional: da defensiva à agenda de liderança

A recente conquista da direção‑geral da Interpol por um delegado da Polícia Federal demonstra a crescente influência do Brasil na segurança internacional. Contudo, Faleiro alerta que o crime organizado pode ser “manipulado para finalidades políticas”, como tem acontecido nas últimas semanas com a retórica anti‑drogas usada por alguns países para legitimar intervenções.

### Uma agenda latina de combate ao crime

Para se libertar da defensiva, o Brasil precisa propor uma agenda de combate ao crime organizado que una os países da América Latina e Caribe. Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que 70 % do tráfico de cocaína que chega à Europa passa por rotas que cruzam a Bolívia, Paraguai e Brasil. Uma cooperação reforçada em inteligência, justiça criminal e controle de fronteiras poderia reduzir em até 15 % o volume de tráfico nos próximos cinco anos, segundo projeções da CEPAL.

Integração regional: desafios entre América Latina e África

A integração brasileira com a América Latina enfrenta obstáculos políticos e institucionais. A eleição de Javier Milei na Argentina e o impasse eleitoral na Venezuela criaram “veto cruzado” que paralisou a tentativa de revitalizar a UNASUL e a CELAC. Sem consenso, a região perde força para negociar acordos comerciais e coordenar políticas de segurança.

### A África como nova fronteira de influência

Paralelamente, a relação histórica do Brasil com a África, construída nas duas primeiras gestões de Lula, está sendo testada por novos atores – China, Turquia e países do Golfo – que oferecem alternativas de cooperação. Enquanto o comércio bilateral atingiu US$ 5,5 bi em 2023, os investimentos chineses em infraestrutura africana ultrapassam US$ 30 bi, colocando o Brasil em posição de “espectador”.

Faleiro sugere a necessidade de “repensar os instrumentos que abandonamos”, como programas de cooperação técnica em saúde, agricultura e energia renovável. A criação de um fundo de parceria Brasil‑África, similar ao Fundo de Solidariedade da União Europeia, poderia alavancar US$ 2 bi em projetos de desenvolvimento até 2030, reforçando laços e ampliando a presença brasileira no continente.

BRICS: expansão que pode ter sido um passo atrás

A ampliação do bloco BRICS em 2023, que incluiu Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Indonésia, Egito, Etiópia e Irã, foi considerada “um erro” por Faleiro. O bloqueio de consenso diante de conflitos, como o entre Irã e Emirados, demonstra a fragilidade institucional do grupo. Sem uma posição unificada, os BRICS deixam de ser um contrapeso efetivo às políticas ocidentais.

### O que o Brasil pode fazer?

1. **Focar na agenda de defesa e segurança** – reforçar a cooperação militar com países que compartilham preocupações estratégicas (ex.: Índia, África do Sul).
2. **Consolidar a liderança em minerais críticos** – transformar reservas em cadeias produtivas avançadas, garantindo participação em padrões globais.
3. **Acelerar a soberania digital** – instituir marcos regulatórios e investir em infraestruturas nacionais.
4. **Assumir a frente no combate ao crime organizado latino‑americano** – coordenar operações conjuntas e criar um centro de inteligência regional.
5. **Reavivar a integração com a África** – mediante fundos bilaterais e projetos de desenvolvimento sustentável.

Perspectivas futuras

Se o Brasil conseguir transformar a percepção de vulnerabilidade em um plano de ação concreto, poderá emergir como uma potência média‑forte, com capacidade de dissuasão real, presença estratégica nas cadeias de minerais críticos e protagonismo digital na América Latina. A falta de investimentos ou a paralisação dos BRICS não precisam ser um obstáculo permanente; ao contrário, podem servir de incentivo para que o país busque alianças mais flexíveis e focadas em interesses nacionais.

Em síntese, a defesa não será mais um assunto marginal dentro da política externa, mas o eixo que conectará todas as demais frentes estratégicas. A decisão que o Brasil tomará nos próximos anos – investir ou não, liderar ou permanecer na defensiva – definirá sua posição no mapa geopolítico até 2030, impactando diretamente a segurança, a economia e a influência regional do país.

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*Este artigo foi produzido a partir de declarações do assessor‑chefe adjunto Audo Faleiro, dados de institutos de pesquisa e fontes oficiais brasileiras, buscando oferecer uma análise aprofundada dos desafios que moldarão a política externa do Brasil nos próximos anos.*

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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Marcos Oliveira

Analisa os principais acontecimentos do cenário mundial e seus reflexos na América Latina.

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