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Desculpas de joelho do Vaticano ao Peru: justiça simbólica ou começo de reparação?

No fim de maio, monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano, ajoelhou‑se diante da comunidade camponesa de San Juan Bautista, em Catacaos (Piura), e pediu perdão pelos a

Marcos Oliveira
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Desculpas de joelho do Vaticano ao Peru: justiça simbólica ou começo de reparação?
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No fim de maio, monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano, ajoelhou‑se diante da comunidade camponesa de San Juan Bautista, em Catacaos (Piura), e pediu perdão pelos abusos cometidos pelo extinto Sodalício de Vida Cristã. O gesto, carregado de simbolismo, trouxe à tona décadas de disputa fundiária, denúncias de abusos sexuais e a revelação de uma complexa rede econômica ligada a um movimento religioso ultraconservador. Mas, para os habitantes da região — descendentes dos Tallán, um dos povos indígenas mais antigos do norte do Peru — a desculpa ainda soa como “fizeram o que quiseram porque somos pobres”.

O drama de Catacaos: de transferência fraudulenta a protestos mortais

A disputa começou em 1998, quando quase 10 mil hectares de territórios coletivos foram “transferidos” nos registros públicos para 100 camponeses que, segundo a comunidade, nem participaram da suposta assembleia. A operação acabou por alimentar a empresa Pampa Loma Vega, que vendeu as áreas a outras companhias, entre elas a Associação Civil San Juan Bautista (ACSJB), ligada ao Sodalício fundado por Fernando Figari em 1971.

A situação ganhou gravidade em 2011, quando cercas foram erguidas em terras que os moradores consideravam suas. Ao derrubarem os limites, foram alvejados por tiros; um dos primeiros a perder a vida foi Guadalupe Zapata Sosa, reconhecido pelo Vaticano como “líder indígena falecido após se opor ao tráfico de terras”. O caso ainda não tem sentença judicial definitiva, mas a narrativa dos camponeses foi confirmada por relatos de jornalistas investigativos como Paola Ugaz, que revelou a estrutura de “holding” do Sodalício, com empresas imobiliárias, agroexportadoras e instituições sem fins lucrativos que se beneficiavam de isenções fiscais concedidas pelo concordato.

Dados concretos: quem são os culpados e quanto vale a terra?

- **Terras envolvidas:** cerca de 9.800 ha (aproximadamente 98 km²).
- **Valor estimado dos ativos do Sodalício:** entre US$ 120 mi e US$ 180 mi, segundo documentos analisados pela Santa Sé.
- **Número de vítimas:** ao menos 23 famílias declararam ter perdido áreas produtivas; dezenas de pessoas foram processadas por suposta “ocupação ilegal”.
- **Processos judiciais:** em 2022, 15 processos contra camponeses foram arquivados; já em maio 2026, a ação de amparo constitucional foi rejeitada pelo 5.º Juizado Civil de Piura, decisão mantida pela 2ª Câmara.

Essas cifras mostram que a questão vai muito além de um litígio fundiário: ela envolve patrimônio econômico de grande monta, que, se ressarcido, poderia transformar a realidade de comunidades que vivem da agricultura familiar, da apicultura e da criação de gado.

Reflexos na América Latina: quando a Igreja se torna protagonista de conflitos fundiários

O caso peruano ecoa outras disputas da Região, onde entidades religiosas foram acusadas de atuar como “capa” para negócios imobiliários e agroindustriais. No Brasil, a chamada “Misericórdia de São Pedro” (Ceará) já enfrentou processos por suposta apropriação indevida de terras indígenas. Já no México, a Igreja católica foi citada em investigações sobre concessões de mineração em territórios zapotecas.

Esses episódios revelam um padrão: a falta de titulação coletiva de povos originários, combinada com a imagem de legitimidade que instituições religiosas carregam, cria terreno fértil para fraudes. Segundo o relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2023), cerca de **30 %** das comunidades indígenas na América Latina não têm registro de propriedade reconhecido, o que aumenta sua vulnerabilidade a “transferências ilícitas”.

Perspectivas futuras: o que resta após o pedido de perdão?

O Vaticano prometeu usar os bens do Sodalício para compensar as vítimas, mas ainda não há cronograma de pagamentos. O monsenhor Bertomeu ressaltou que “a justiça peruana deve fazer mais” e lançou um alerta sobre a “crise institucional” que dificulta a reparação. Enquanto isso, as comunidades de Catacaos planejam recorrer ao Tribunal Constitucional e, possivelmente, levar o caso ao Comitê de Direitos Indígenas da ONU.

Para o Brasil, o caso serve como alerta para autoridades e movimentos sociais: a necessidade de **regularizar títulos coletivos**, fortalecer a consulta prévia prevista no **Convenio 169 da OIT** e monitorar a atuação de instituições religiosas em projetos econômicos. A experiência peruana pode motivar o Congresso a avançar na Lei da Regularização Fundiária de Terras Indígenas (PL 839/2025), que ainda não foi aprovada.

Além disso, a postura do Papa Leão XIV, que pretende visitar o Peru ainda este ano, pode influenciar a agenda internacional da Igreja, pressionando outras arquidioceses a reverem seus vínculos comerciais. Caso o Vaticano cumpra a promessa de reparação econômica, o precedente poderá abrir caminho para demandas semelhantes em países como Bolívia, Equador e até no próprio Brasil, onde grupos religiosos têm sido apontados como intermediários em empreendimentos de grande porte.

Conclusão: perdão simbólico ou passo rumo à reparação?

A imagem de padres ajoelhados diante de camponeses pobres ficou marcada nas redes sociais e nas manchetes mundiais. Contudo, o verdadeiro peso da justiça depende de ações concretas: a liberação dos ativos do Sodalício, o reconhecimento legal da terra coletiva dos Tallán e a implementação de políticas públicas que evitam nova exploração.

Se o Vaticano transformar o pedido de desculpas em um mecanismo efetivo de reparação, poderá mudar a narrativa de impunidade que historicamente cerca essas comunidades. Caso contrário, o gesto de joelhos será lembrado apenas como um ato dramático, enquanto as famílias de Catacaos continuarão a lutar por um direito que lhes foi tirado há mais de duas décadas.

*Por Luiz Felipe Ribeiro, correspondente do BrasilAgoraOmega*

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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Marcos Oliveira

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