Quem são Roberto Sánchez e Keiko Fujimori? O que pode decidir a eleição que definirá o futuro do Peru “ingovernável”
A disputa pela Presidência do Peru chegou ao ponto de clímax nas urnas nacionais, mas o que realmente está em jogo vai muito além dos nomes de Roberto Sánchez e Keiko Fujimori. Em

A disputa pela Presidência do Peru chegou ao ponto de clímax nas urnas nacionais, mas o que realmente está em jogo vai muito além dos nomes de Roberto Sánchez e Keiko Fujimori. Em meio a um cenário de polarização extrema, eleitores indecisos e um histórico de governos que não conseguiram se manter estáveis, a eleição de 2024 pode determinar se o país sul‑americano seguirá à deriva ou encontrará um caminho de consolidação democrática. Para o Brasil e para a América Latina, o resultado tem implicações diretas nas relações comerciais, no combate ao tráfico de drogas e nas dinâmicas de integração regional.
Quem são os candidatos?
Roberto Sánchez, 47 anos, é o atual presidente do Congresso e líder do partido **Alianza para el Progreso** (Aliança para o Progresso). Economista de formação, ele ganhou notoriedade ao coordenar a votação de duas moções de destituição contra o ex‑presidente Pedro Castillo em 2022, mostrando habilidade em articular acordos entre facções conservadoras e centristas. Defensor de um “neoliberalismo pragmático”, Sánchez promete privatizar empresas estatais de energia e abrir o mercado de mineração a investimentos estrangeiros, principalmente de China e dos Estados Unidos. Ele afirma que a “estabilidade institucional” só será possível com reformas estruturais e o fim da “cultura de impunidade” que, segundo ele, marcou a última década.
Keiko Fujimori, 49 anos, é filha do ex‑presidente Alberto Fujimori (1990‑2000) e líder do **Fuerza Popular** (Força Popular). Já concorreu à Presidência em 2011, 2016 e 2021, sendo derrotada nas duas primeiras e marcada por suspeitas de fraude nas últimas. Formada em direito pela Universidade de Boston, a política tem uma agenda que mescla populismo de direita com linhas autoritárias: apoio ao uso da força contra gangues criminosas, restrição à imigração venezuelana e a promessa de “restaurar a ordem” que, segundo seus apoiadores, desapareceu com a queda do regime de seu pai. Sua base permanece firme nas áreas rurais do sul e nas periferias urbanas de Lima, onde o desemprego supera 15 % e a insegurança é uma preocupação diária.
Por que a escolha é decisiva?
### 1. Fragilidade institucional
Desde 2020, o Peru já registrou **quatro presidentes**, dois dos quais depostos por impeachment e dois interinos. A Constituição de 1993, elaborada durante a ditadura de Alberto Fujimori, apresenta lacunas que permitem destituir presidentes a partir de menos da metade dos congressistas, o que tem sido explorado por opositores. Segundo o pesquisador da Universidad del Pacífico, Carlos Mendoza, “a incerteza jurídica gera efeito dominó nas políticas públicas, afastando investimentos estrangeiros e corroendo a confiança da população nas instituições”.
### 2. Polarização social
As pesquisas de **Ipsos (abril 2024)** apontam que 42 % dos eleitores se declaram “altamente polarizados”, enquanto apenas 28 % se consideram “moderados”. Nas áreas mais pobres, a preferência recai sobre Keiko Fujimori devido ao discurso de ordem e segurança. Nas regiões de mineração e agroindústria, Sánchez tem maior apoio por prometer maior abertura ao capital estrangeiro. Essa divisão geográfica cria um mapa eleitoral de “cidades‑fatais” que pode tornar o pleito ainda mais volátil.
### 3. Influência externa
O Peru tem sido palco de disputa entre os Estados Unidos e a China. Enquanto Washington pressiona por uma política antidrogas mais rigorosa, Pequim tem investido US$ 3,2 bilhões em projetos de infraestrutura das rotas da “Belt and Road”. Sánchez, ao se alinhar com a política econômica americana, pode receber apoio logístico e financeiro de Washington, mas corre o risco de perder investimentos chineses que já respondem por 18 % do PIB peruano. Fujimori, historicamente favorável aos laços com a China devido ao legado de seu pai, pode manter o fluxo de capitais chineses, mas sua retórica autoritária pode gerar sanções de Washington.
Dados que revelam a encruzilhada
- **Inflação**: 6,3 % em janeiro 2024, acima da meta do Banco Central (2‑3 %).
- **Desemprego**: 7,9 % nacional, porém 15,2 % nas áreas rurais do sul (onde Fujimori tem mais apoio).
- **Investimento Estrangeiro Direto (IED)**: queda de 12 % em 2023, reflexo da instabilidade política.
- **Segurança**: Taxa de homicídios em Lima chegou a 16,7 por 100 mil habitantes em 2023, a maior desde 2001.
- **Eleitores indecisos**: 31 % segundo a encuesta de **HPP (Hernandez‑Polanco & Partners)**, o maior percentual desde 2006.
Esses números mostram que a escolha entre os dois candidatos implica decisões sobre políticas econômicas, segurança pública e posicionamento geopolítico.
O Peru à luz do Brasil e da América Latina
Para o Brasil, o futuro do Peru tem consequências diretas nas cadeias de suprimentos e na segurança fronteiriça. O **Mercado Comum do Sul (Mercosul)** tem negociado um acordo de livre‑comércio com o Peru desde 2021; a aprovação depende da estabilidade institucional do país vizinho. Além disso, a região amazônica – que atravessa ambos os países – requer cooperação contra o desmatamento e o tráfico de drogas. Um governo de Sánchez, mais alinhado com Washington, pode fortalecer a cooperação antidrogas, mas também pode levar a uma maior pressão por projetos de mineração que ameaçam comunidades indígenas e o meio ambiente.
Na perspectiva latino‑americana, o resultado peruano pode servir de barômetro para outras democracias em crise. O **Ecuador**, que enfrenta protestos massivos contra medidas de austeridade, observa atentamente a resposta do eleitorado peruano à proposta de liberalização econômica de Sánchez. Já a **Venezuela**, que tem buscado apoio de governos de esquerda, pode encontrar um aliado em Lima caso Fujimori vença, dada a tendência de seu governo de adotar políticas mais autoritárias e menos alinhadas ao blocos ocidentais.
Perspectivas futuras
Se Roberto Sánchez vencer, a expectativa é de que implemente um pacote de reformas estruturais nos primeiros 100 dias: privatização parcial da estatal **Enel Peru**, revisão da Lei de Mineração e concessão de incentivos fiscais para investidores chineses. Analistas do **Brookings Institution** alertam que, sem um consenso amplo no Congresso, tais medidas podem gerar novos embates e até outra crise institucional.
Caso Keiko Fujimori conquiste a Presidência, o cenário pode se assemelhar ao governo de seu pai: pressão maior sobre o judiciário, restrição de liberdades civis e um endurecimento na política de segurança. O risco de retrocessos nos direitos humanos seria elevado, podendo levar a sanções de organismos internacionais e a um isolamento diplomático.
O que se tem em comum é que, independentemente do vencedor, o Peru precisará de **coalizões amplas** para garantir governabilidade. A tradição de “presidentes de coalizão” – como Ollanta Humedes (2011‑2016) – mostrará seu valor nesta fase crítica. Para o Brasil, acompanhar de perto o desenrolar desse processo é essencial para ajustar políticas comerciais, de segurança e de desenvolvimento sustentável na região.
Em resumo, a eleição peruana não é apenas mais um pleito eleitoral; é um teste de resistência institucional, um reflexo das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China, e um ponto de inflexão para a integração sul‑americana. Seja com a agenda liberal de Sánchez ou o retorno ao populismo de Fujimori, o futuro do Peru – e, por extensão, o de seus vizinhos – está em jogo. O Brasil, como maior parceiro econômico da região, tem muito a ganhar ou perder dependendo do resultado. O próximo domingo decidirá não apenas quem ocupará o Palácio de Governo em Lima, mas também qual caminho a América Latina seguirá nos próximos anos.
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Marcos OliveiraAnalisa os principais acontecimentos do cenário mundial e seus reflexos na América Latina.
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