PEC da maioridade penal: quais são os próximos passos e o que isso significa para o Brasil?
A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados acabou de aprovar, com 44 votos a favor e 18 contra, a proposta de emenda à Constituição qu

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados acabou de aprovar, com 44 votos a favor e 18 contra, a proposta de emenda à Constituição que pretende baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos. Embora a votação tenha sido um marco simbólico – um dos primeiros avanços de um debate que arrasta há mais de uma década – a medida ainda tem um longo caminho pela frente antes de virar lei. Entenda como funciona o rito constitucional, quais são os principais argumentos dos lados a favor e contra, e quais os impactos potenciais para o Brasil e para a América Latina.
O caminho legislativo ainda está apenas começando
A aprovação na CCJ representa apenas a primeira fase de um procedimento que, por força da própria Constituição, exige três quóruns qualificados: (i) aprovação em Comissão Especial temporária; (ii) dois turnos de votação no Plenário da Câmara, com maioria de três quintos (308 dos 513 deputados); e (iii) aprovação nas mesmas condições no Senado Federal.
### Comissão Especial: o que será analisado?
A Mesa Diretora da Câmara já anunciou a criação de uma Comissão Especial temporária, cujo mandato será de até 180 dias. Nessa comissão, os parlamentares poderão:
* Realizar audiências públicas com especialistas em criminologia, direitos humanos, educação e representantes da sociedade civil;
* Propor emendas ao texto original – sobretudo em pontos que tratam da aplicação retroativa, da transição para o novo regime e de garantias processuais para menores de 18;
* Votar um relatório final que será encaminhado ao plenário.
Caso o relatório seja aprovado, a proposta segue para a votação em dois turnos na Câmara. O rito constitucional exige, ainda, que a emenda seja aprovada em dois turnos no Senado, obedecendo ao mesmo quórum de três quintos. Somente após essa sequência a mudança poderá ser promulgada pelo Presidente da República e entrar em vigor.
Dados e argumentos: segurança versus direitos humanos
### O que defendem os favoráveis?
Os parlamentares que apoiam a redução apontam para a percepção de impunidade diante de crimes graves cometidos por jovens de 16 a 17 anos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), 22 % dos homicídios dolosos no país têm autores nessa faixa etária, número que tem apresentado leve aumento nos últimos cinco anos. Para o deputado Coronel Assis (PL-MT), relator da proposta, “não podemos deixar jovens de 16 anos à margem do sistema penal quando eles cometem atos de violência que matarem ou mutilarem outras pessoas”.
Além disso, os defensores sustentam que a medida seria um “sinal de responsabilidade” para famílias e escolas, ao tornar o sistema penal mais “punitivo” e supostamente inibidor.
### O que argumentam os opositores?
A bancada de esquerda, organizações de direitos humanos e especialistas em justiça juvenil apontam para o risco de violar garantias constitucionais, como o princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III) e o direito à educação (art. 205). Dados do Ministério da Educação revelam que 30 % dos adolescentes que abandonam a escola antes dos 18 anos são dos grupos socioeconômicos mais vulneráveis, o que indica que a criminalidade tem causa estrutural, não apenas “escolha individual”.
Estudos da UNICEF (2022) sobre justiça de menores na América Latina mostram que países que adotaram a responsabilização penal a partir dos 16 anos — como Argentina (2009) e Chile (2021) — registraram aumento nas taxas de encarceramento juvenil sem redução significativa nos índices de violência. O relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU (2023) alerta ainda que a “rejuvenescência” das penas pode agravar a reincidência, devido à maior exposição ao ambiente carcerário.
Contexto brasileiro e latino-americano
### Histórico da PEC 32/2015
A proposta tem origem em 2015, quando o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) apresentou a chamada “PEC da plena maioridade civil e penal aos 16 anos”. Apesar de ter sido arquivada em 2019, o assunto ressurgiu nos últimos anos com o aumento da criminalidade urbana e com a agenda eleitoral de candidatos que prometiam “punição mais dura”. Em 2023, o relator atual substituiu o texto original, preservando a maioridade civil – ou seja, o alistamento eleitoral e o voto continuam facultativos aos 16 anos – e limitando a mudança apenas ao âmbito penal.
### Tendências na América Latina
A região tem experimentado um debate contínuo sobre a idade penal mínima. Enquanto o México manteve a maioridade penal em 18 anos, a Argentina reduziu para 16 em casos de homicídio doloso em 2009. No Chile, a Lei nº 21.215 (2021) permitiu o julgamento de menores de 18 anos como adultos em crimes graves, mas manteve mecanismos de reintegração. Essas experiências mostram que a mera mudança de idade não resolve os problemas de segurança pública; a eficácia depende de políticas integradas de prevenção, educação e reinserção social.
Perspectivas futuras e possíveis impactos
### Cenário político
Com a polarização crescente no Congresso, a aprovação da PEC depende de articulações partidárias. O bloco governista tem maioria nominal, mas precisa garantir apoio de centro‑direita e parte dos moderados para alcançar os 308 votos necessários. No Senado, a situação pode ser ainda mais delicada, dado o número de senadores que já manifestaram preocupação com o impacto em direitos humanos.
### Implicações práticas
* **Sistema prisional:** O Brasil já possui a maior taxa de encarceramento do mundo (aproximadamente 770 presos por 100 mil habitantes). A inclusão de menores de 16 a 17 anos poderia sobrecarregar ainda mais estabelecimentos que, em parte, ainda não são adequados ao tratamento de adolescentes.
* **Políticas públicas:** A redução pode deslocar o foco de investimentos em educação, cultura e assistência social – áreas apontadas por especialistas como essenciais para a prevenção da violência juvenil.
* **Relações internacionais:** O Brasil pode enfrentar críticas de organismos como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que tem alertado contra a criminalização precoce de adolescentes.
### O que a sociedade civil pode fazer?
A partir da criação da Comissão Especial, audiências públicas serão abertas. Grupos de direitos humanos, organizações não governamentais, sindicatos de professores e entidades de assistência social têm a oportunidade de apresentar pesquisas, casos concretos e propostas alternativas, como a ampliação de programas de mediação de conflitos e de prevenção ao crime.
A pressão popular será decisiva: manifestações recentes contra o trabalho infantil e o aborto em casos de estupro demonstram que a agenda social está cada vez mais mobilizada. Se a sociedade conseguir articular um debate que vá além da retórica da “punição”, pode influenciar o resultado final da PEC.
Conclusão
A aprovação da PEC na CCJ é apenas o primeiro passo de um percurso constitucional que ainda pode se arrastar por meses ou até anos. Enquanto os parlamentares preparam a Comissão Especial, o debate público sobre a redução da maioridade penal deve aprofundar-se, incorporando dados comparativos, avaliações de políticas públicas e a voz dos próprios adolescentes. Afinal, mudar a idade penal sem enfrentar as causas estruturais da violência pode gerar mais prisões e menos segurança – um verdadeiro risco para o futuro do Brasil e da América Latina.
Veja também
→ Redução da maioridade penal: quem votou a favor e o que isso significa para o Brasil
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Fernanda CostaCobre o Congresso Nacional, eleições e os bastidores do poder em Brasília há mais de oito anos.
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