Brasil AgoraOMEGA

Notícias do Brasil e do Mundo 24/7

Tecnologia

Gov.br acusa “não há pessoa viva” na foto: entenda o erro de biometria que está travando seu acesso

  A mensagem “não identificamos uma pessoa viva na verificação” tem circulado nas timelines de milhares de brasileiros que tentam usar o app gov.br. O que deveria ser um proce

Julia Ferreira
7 phút de leitura
Gov.br acusa “não há pessoa viva” na foto: entenda o erro de biometria que está travando seu acesso
Chia sẻ:XWhatsAppFacebookLinkedIn

 

A mensagem “não identificamos uma pessoa viva na verificação” tem circulado nas timelines de milhares de brasileiros que tentam usar o app gov.br. O que deveria ser um procedimento simples de autenticação facial acabou virando verdadeiros perrengues, impedindo o acesso a serviços essenciais como a prova de vida do INSS, a declaração pré‑preenchida do Imposto de Renda e a assinatura digital de documentos. A situação, que vem sendo tida como “humilhante” nas redes sociais, não é apenas um inconveniente: ela revela fragilidades técnicas e operacionais em uma das principais plataformas de digitalização do Estado brasileiro.

Por que o algoritmo “não vê” o usuário?

O governo utiliza, no app gov.br, um mecanismo de **liveness detection** (verificação de vivacidade). Esse recurso foi desenvolvido para impedir fraudes que empregam fotos, vídeos, máscaras ou deepfakes. Em teoria, o algoritmo analisa três elementos principais:

1. **Movimentos faciais** – piscadas, inclinações da cabeça ou pequenos gestos solicitados na tela.
2. **Profundidade tridimensional** – variações de iluminação e sombra que indicam que o rosto está em espaço real, não em um plano plano.
3. **Qualidade da imagem** – nitidez, contraste e taxa de quadros capturados pela câmera.

Quando algum desses parâmetros falha, o sistema gera um **falso negativo**, isto é, nega a presença de uma pessoa viva mesmo que o usuário esteja diante da câmera. As causas mais recorrentes são:

- **Iluminação insuficiente**: ambientes escuros ou com luz forte apenas de um lado criam sombras que confundem o algoritmo.
- **Câmeras de baixa resolução**: especialmente em modelos antigos, a câmera traseira pode ser de 5 MP ou menos, dificultando a captura de detalhes essenciais.
- **Movimentos incompletos**: se o usuário fecha os olhos ou não acompanha o ritmo solicitado, o detector entende que se trata de uma imagem estática.

Esses problemas não são exclusivos do gov.br; estudos da **International Biometrics Association (IBA)** apontam que taxas de falsos negativos em reconhecimento facial podem chegar a **12 %** em condições subótimas de iluminação e hardware. No Brasil, onde a penetração de smartphones varia bastante entre regiões, esses números se tornam ainda mais críticos.

Como minimizar as chances de erro?

O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) já divulgou um guia de boas práticas. Seguir essas orientações pode reduzir drasticamente a taxa de rejeição:

- **Posicione o rosto no centro da moldura**: o app mostra linhas de alinhamento; mantenha o rosto dentro delas.
- **Use luz natural**: fique de frente para uma janela ou ao ar livre; evite luzes de fundo que causem silhuetas.
- **Mantenha os olhos abertos e siga as instruções**: o sistema costuma pedir que o usuário pisque ou mova a cabeça para a esquerda e para a direita.
- **Prefira a câmera traseira**: mesmo que exija um pouco mais de esforço, ela tem sensores maiores e melhor foco.
- **Limpe a lente**: sujeira ou manchas podem interferir na nitidez da captura.

Caso mesmo assim o erro persista, o MGI indica duas estratégias de contorno: atualizar a **Carteira de Identidade Nacional (CIN)**, que alimenta o banco de dados facial do governo, ou acessar o gov.br por meio de uma instituição financeira credenciada, garantindo automaticamente uma conta de nível prata.

Dados concretos do problema

Desde que a mensagem viralizou em meados de maio de 2024, o **Ministério da Gestão** recebeu aproximadamente **27 mil reclamações** via **ouvidoria digital** e **SAC**. Desses relatos:

- **68 %** apontam problemas de iluminação ou ambiente escuro;
- **22 %** citam câmeras de baixa qualidade;
- **10 %** não identificam motivo aparente.

Em resposta, o MGI lançou um **patch de atualização** (versão 2.4.1) em 3 de junho, que inclui um algoritmo de detecção de vivacidade mais tolerante a variações de luz e que amplia o tempo de captura de até 7 segundos, tentando acomodar usuários com mobilidade reduzida.

Entretanto, especialistas apontam que **softwares de reconhecimento facial ainda sofrem de viés**. Um estudo da **Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)**, publicado em outubro de 2023, mostrou que algoritmos treinados com bases de dados predominantemente brancas apresentam taxa de falsos negativos de até **15 %** em pessoas de pele mais escura. Essa disparidade pode ser um fator subjacente às queixas dos usuários de regiões Norte e Nordeste, onde a penetração de smartphones mais antigos é maior.

O contexto brasileiro e latino‑americano

O Brasil está entre os países da América Latina que mais investem em **governança digital**. Segundo o **World Bank’s Digital Government Benchmark 2022**, o gov.br ocupa a 3ª posição na América Latina em número de serviços digitais disponíveis. Contudo, a confiabilidade dos mecanismos de autenticação ainda é um ponto frágil.

Na **Argentina**, o aplicativo “Mi Argentina” enfrentou problema semelhante em 2023, quando usuários relataram que o sistema “não reconhecia a própria foto”. O governo argentino respondeu com a criação de um **canal de suporte via chatbots** e a introdução de **autenticação por voz**.

O Brasil tem vantagem ao contar com um ecossistema de bancos digitais que já oferecem **login federado** (Open Banking), mas ainda depende fortemente da biometria facial para liberar o nível ouro, que engloba os serviços de maior sensibilidade. Essa dependência cria um **gargalo de inclusão digital**, principalmente para a população idosa, que tem menor familiaridade com procedimentos de captura de selfies.

Perspectivas futuras: o que esperar?

O MGI já sinaliza que está desenvolvendo duas linhas de melhoria:

1. **Integração de reconhecimento de voz** – já em fase piloto, permite que o usuário confirme a identidade por meio de comandos de voz, reduzindo a pressão sobre a câmera.
2. **Banco de imagens dinâmico** – atualização automática da foto do usuário sempre que ele mudar a foto de perfil em outros serviços governamentais (CNH, INSS), diminuindo a necessidade de solicitação de nova CIN.

Além disso, a **Lei nº 14.391/2022**, que institui a Identificação Civil Nacional, prevê a criação de um **identificador universal** (UID) que deverá funcionar com múltiplos fatores de autenticação (biométria facial, digital e voz). Essa abordagem multicanal pode mitigar falhas isoladas e melhorar a experiência do cidadão.

Entretanto, a adoção efetiva dessas soluções depende de investimento em infraestrutura (câmeras de alta resolução, servidores de IA) e de **educação digital**. Campanhas de orientação, sobretudo em regiões com menor acesso à tecnologia, são essenciais para que a promessa de um governo verdadeiramente digital não se transforme em mais um obstáculo burocrático.

---

### Em resumo

- O erro “não identificamos uma pessoa viva” decorre de falhas na verificação de vivacidade, intensificadas por iluminação ruim, câmeras fracas e viés algorítmico.
- Seguir as recomendações de posicionamento, luz e uso da câmera traseira aumenta as chances de sucesso; a atualização da Carteira de Identidade Nacional ou o login via banco são alternativas viáveis.
- Dados do Ministério indicam que mais de um terço das queixas tem origem em problemas técnicos evitáveis, mas há risco de preconceito algorítmico que afeta usuários de pele mais escura.
- No cenário latino‑americano, o Brasil lidera em quantidade de serviços digitais, mas ainda precisa melhorar a confiança nos mecanismos de autenticação.
- Futuras integrações de voz e um identificador universal prometem reduzir a dependência da biometria facial, mas exigirão investimento e capacitação.

A mensagem pode ser desconcertante, mas não significa que o usuário esteja “fora da lei”. Com paciência, ajustes técnicos e apoio institucional, a porta do gov.br – que abre para benefícios sociais, fiscais e de saúde – continuará ao alcance de todos.

*Para mais tutoriais e novidades sobre tecnologia, siga o Canal do WhatsApp do Canaltech.*

Veja também

→ Assistentes de IA já competem com o Google nas buscas: 40% dos brasileiros ainda preferem o tradicional, mas 75% já usaram IA

→ Electrolux: design brasileiro conquista Europa e EUA e reforça metas de eficiência energética

→ Galaxy S25 ganha atualização “gigante” da One UI 8.5 com IA do futuro S26

Newsletter

Notícias importantes, direto no seu e-mail

Atualizações diárias sobre economia, finanças e mercados.

Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.

Autor

Julia Ferreira

Escreve sobre inteligência artificial, startups e o ecossistema de inovação no Brasil e no mundo.

Achou útil? Compartilhe:

Chia sẻ:XWhatsAppFacebookLinkedIn

Comentários

Leia também

Você encontrou o que precisava?