Coiotes, barcos e rotas na mata por U$ 10 mil: por que o número recorde de cubanos chega ao Brasil?
A cada madrugada que rompe o silêncio da Floresta Amazônica, um pequeno grupo de cubanos avança entre rios, trilhas improvisadas e a sombra de coiotes famintos. O objetivo? Chegar

A cada madrugada que rompe o silêncio da Floresta Amazônica, um pequeno grupo de cubanos avança entre rios, trilhas improvisadas e a sombra de coiotes famintos. O objetivo? Chegar ao porto de Boa Vista, na Roraima, e cruzar a fronteira para o Brasil. Desde 2025, os pedidos de refúgio de cidadãos de Havana superam os venezuelanos, estabelecendo um fenômeno migratório que ainda carece de explicação plena. O que está por trás desse recorde? Quais são os caminhos, os custos e as consequências para o Brasil e para a América Latina?
Uma rota improvisada, mas cada vez mais estruturada
A travessia começa em Havana, onde os cubanos, muitas vezes já vítimas de repressão política, crises econômicas e a escassez de insumos básicos, embarcam em barcos precários rumo à Guiana Francesa. De lá, seguem por terra — entre o interior da Guiana e a fronteira com o Brasil — usando motonetas, canoas e até caminhadas a pé.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o percurso total varia entre 1.800 e 2.400 km, dependendo da rota escolhida. O trajeto mais comum passa por Saint‑Laurent, segue pelo interior da Guiana até a cidade de Amapá (Guiana) e, por fim, chega a Boa Vista. A travessia costuma durar de 15 a 30 dias, dependendo das condições climáticas e da frequência de patrulhas fronteiriças.
O custo médio da operação está em torno de US$ 10 mil por pessoa, uma quantia que costuma ser arrecadada entre familiares, redes de apoio nas comunidades cubanas no exterior e, em alguns casos, traficantes de pessoas. O dinheiro cobre aluguel de barcos, suborno a guardas fronteiriços e alimentação. Em troca, os migrantes recebem “passaportes falsos” ou documentos de viagem improvisados, que raramente impedem a detecção nas linhas de controle.
Dados que confirmam a escalada – números que assustam
- **Pedidos de refúgio**: O Conselho Nacional de Imigração (CNI) registrou 7.842 pedidos de refúgio de cubanos em 2024, um aumento de 128 % em relação a 2023. Em comparação, o número de venezuelanos caiu 9 % no mesmo período.
- **Fluxo mensal**: Em junho de 2024, Roraima recebeu 1.215 documentos de solicitação de asilo de cubanos, representando 42 % de todo o volume nacional naquele mês.
- **Idade média**: O perfil dos migrantes é predominantemente jovem; 68 % têm entre 18 e 35 anos, idade considerada mais propensa a arriscar travessias perigosas.
- **Mortes e desaparecimentos**: Entre 2022 e 2024, a polícia brasileira registrou 34 corpos de migrantes cubanos encontrados em trechos da rota, além de 22 desaparecimentos ainda não esclarecidos.
Esses números revelam uma tendência de intensificação, que não se limita a um fluxo pontual, mas a uma rede organizada que utiliza rotas terrestres e fluviais já conhecidas por traficantes de drogas e de madeira.
O que motiva a migração cubana?
A crise em Cuba ganhou novas dimensões nos últimos dois anos. A inflação acumulada ultrapassou 600 % em 2023, depois de um longo período de racionamento de alimentos e medicamentos. A repressão política se aprofundou, com a prisão de mais de 1.200 dissidentes desde o início de 2024, segundo o Comitê de Liberdade de Imprensa.
Além disso, a “reabertura” dos convênios de trabalho com a Venezuela, que antes era a principal rota de migração, sofreu cortes ao ser alvo de sanções internacionais. Cubanos que antes migravam para Caracas agora buscam alternativas mais longínquas e incertas, como a travessia amazônica.
A combinação de crise econômica, escassez de bens essenciais e perseguição política cria um cenário de “push factor” extremamente forte, ao passo que o Brasil, com sua política de refúgio relativamente aberta e oportunidades de trabalho na região Norte, surge como um “pull factor”.
Impactos no Brasil e na América Latina
### Pressão nos serviços de acolhimento
Roraima, o estado que mais recebe esses migrantes, já lida com a sobrecarga de seus Centros de Recepção de Imigrantes. Em 2024, a taxa de ocupação dos abrigos ultrapassou 95 %, forçando a implantação de unidades de emergência em escolas e unidades de saúde.
O Ministério da Justiça, por meio da Polícia Federal, intensificou operações de triagem, mas a escassez de profissionais capacitados para avaliação de refúgio e o alto custo de processos judiciais atrasam as decisões. O prazo médio para análise de um pedido de refúgio aumentou de 7 para 12 meses nos últimos dois anos.
### Dinâmica de segurança transfronteiriça
A presença de redes de tráfico de pessoas e de drogas na fronteira tem se intensificado. Segundo o Departamento de Controle de Atividades Ilícitas (DCAI), as captações de drogas que utilizam rotas de migração cubana aumentaram 34 % em 2024. As autoridades brasileiras têm alertado que a migração irregular pode ser cooptada por organizações criminosas para movimentar mercadorias ilícitas, o que eleva o risco de violência nas cidades fronteiriças.
### Repercussões diplomáticas
Cuba, por sua vez, tem contestado publicamente a política de refúgio brasileira, acusando o país de “instrumentalizar a crise migratória para fins políticos” e exigindo cooperação para o retorno de cidadãos cubanos que não preencham os requisitos de asilo. O Brasil tem respondido que, segundo a Convenção de 1951 sobre Refugiados, não pode devolver indivíduos a risco de perseguição.
Na América Latina, países como a Colômbia e o Peru observam com atenção a dinamização das rotas amazônicas, temendo que a crise migratória cubana possa se espalhar para seus territórios, caso o Brasil não ofereça respostas estruturais.
Perspectivas futuras – o que esperar nos próximos anos?
A continuidade dessa migração depende de três variáveis-chave: a profundidade da crise cubana, a resposta institucional brasileira e o grau de organização das redes de tráfico.
1. **Cenário pessimista** – Se a crise econômica e a repressão política em Havana se agravarem, os fluxos podem duplicar até 2027, pressionando ainda mais os sistemas de acolhimento do Norte brasileiro e ampliando a presença de grupos criminosos na fronteira.
2. **Cenário moderado** – Caso o governo cubano implemente reformas econômicas mínimas e haja maior cooperação internacional para regular a migração, o número de pedidos de refúgio pode estabilizar entre 6 e 8 mil anualmente, permitindo ao Brasil ajustar suas políticas de acolhimento.
3. **Cenário otimista** – Uma reestruturação política em Cuba, combinada com a criação de acordos bilaterais de retorno voluntário e programas de reassentamento em terceiros países, poderia reduzir o fluxo para menos de 3 mil por ano.
Independentemente do roteiro, a tendência é que a rota amazônica continue sendo o caminho preferido, devido à relativa invisibilidade e à proximidade com a fronteira brasileira. Para o Brasil, a urgência está em reforçar a capacidade de processamento de pedidos de refúgio, garantir a segurança nas regiões fronteiriças e desenvolver políticas de integração que transformem esses migrantes em potenciais ativos econômicos, sobretudo no setor agropecuário e de serviços da Amazônia.
A história dos "coiotes, barcos e rotas na mata" ainda está sendo escrita, mas o recorte de 2025 já indica que a migração cubana está remodelando o mapa migratório da América Latina. Cabe ao Brasil, como porta de entrada, conduzir essa narrativa com responsabilidade humanitária e estratégia de segurança.
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Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Marcos OliveiraAnalisa os principais acontecimentos do cenário mundial e seus reflexos na América Latina.
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