Estreito de Ormuz registra recorde de navios: o que isso significa para o Brasil e a América Latina?
Nos últimos dias o Estreito de Ormuz – a estreita passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico – vivenciou um fluxo de embarcações que não era visto desde o iníci

Nos últimos dias o Estreito de Ormuz – a estreita passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico – vivenciou um fluxo de embarcações que não era visto desde o início da guerra no Oriente Médio, em fevereiro de 2026. Segundo a plataforma de monitoramento de tráfego marítimo Kpler, 35 navios cargueiros cruzaram a rota na terça‑feira (23), um número que ultrapassa a média de menos de 10 navios diários registrados entre 1º de março e 14 de junho, período em que o conflito frenou drasticamente o comércio global de hidrocarbonetos.
O aumento repentino ocorre logo após a assinatura de um memorando de entendimento (MoU) entre Irã e Estados Unidos, destinado a garantir a segurança da passagem e a reduzir as hostilidades no Líbano, que haviam levado Teerã a fechar o estreito em resposta aos ataques israelenses. “A administração do Estreito de Ormuz nunca mais será a mesma de antes da guerra”, alertou o principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ao ser citado pela agência oficial Irna, indicando que o Irã pretende assumir um papel de gestor da via — e possivelmente cobrar taxas de trânsito.
Mas quais são as reais implicações desse novo cenário para o Brasil, para a América Latina e para o mercado global de energia? Este artigo analisa as causas desse pico de tráfego, detalha os números recentes, contextualiza a situação para o continente sul‑americano e projeta os possíveis caminhos que se abrem nos próximos meses.
Um recorde inesperado: de menos de 10 para 35 navios em um dia
A corrida dos números começa a mostrar a magnitude da mudança. Antes da guerra, em tempos de paz, estima‑se que cerca de 120 navios cruzavam o Estreito de Ormuz diariamente, transportando principalmente petróleo, gás natural liquefeito (GNL) e derivados químicos. Essa vazão representava quase 30 % do total de tráfego marítimo mundial de hidrocarbonetos, dada a localização estratégica da passagem — entre o Golfo Pérsico (onde se encontram os maiores produtores de petróleo do mundo, como Arábia Saudita, Iraque e Kuwait) e os mercados asiáticos.
Durante o conflito armado, que se intensificou a partir de 1º de fevereiro de 2026, a movimentação despencou. De 1º de março a 14 de junho, a Kpler registrou uma média de 9,4 navios por dia, número que refletia tanto o risco de ataques a embarcações quanto o impacto das sanções econômicas sobre o Irã e seus aliados. A partir de 15 de junho — um dia depois da assinatura do MoU — a média subiu para 21 navios ao dia, chegando a 27 nos últimos cinco dias antes da contagem de 35 na terça‑feira.
Essa escalada representa, em termos percentuais, um aumento de 272 % em relação à média de março‑junho e ainda está a 70 % da capacidade pré‑guerra. O que explica esse salto abrupto? Três fatores principais:
1. **Reabertura controlada** – O acordo Irã‑EUA inclui mecanismos de monitoramento conjunto, como o uso de drones de vigilância e a presença de escoltas navais internacionais, que reduzem a probabilidade de incidentes.
2. **Pressão dos mercados asiáticos** – A China, Japão e Coreia do Sul, responsáveis por cerca de 60 % da demanda mundial por petróleo, pressionam por estabilidade no fornecimento, pressionando as companhias marítimas a utilizarem a rota mais curta.
3. **Diversificação de rotas dos exportadores** – Países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos já começaram a redirecionar parte de suas exportações para navios de tamanho “suave”, que podem operar com menos risco de bloqueio.
Dados concretos: quantos navios, quanto petróleo e qual o preço do cruzeiro
A Kpler disponibilizou, além do número de navios, informações sobre a carga transportada. Na última semana, dos 35 cruzamentos, 22 eram petroleiros Suezmax (capacidade de até 160 mil barris), 9 eram VLCC (Very Large Crude Carrier, até 300 mil barris) e 4 eram navios carregados de GNL. A soma total de hidrocarbonetos transpostos chegou a 4,8 milhões de barris de petróleo bruto e 1,2 milhão de toneladas de GNL.
Esses volumes impactam diretamente o preço do barril no mercado internacional. Desde a assinatura do MoU, o Brent subiu de US$ 79,50 para US$ 86,30, uma alta de quase 9 %. Embora o aumento tenha sido mitigado por fatores como a desaceleração da demanda chinesa por energia, os analistas apontam que a retomada do tráfego no Ormuz reduz o prêmio de risco associado ao petróleo do Golfo, estabilizando os contratos futuros.
Outro ponto importante é o custo de passagem. Ainda não há um regime tarifário oficial definido pelo Irã, mas fontes próximas ao governo sugerem a criação de uma taxa de US$ 2.000 a US$ 3.000 por navio, a ser paga a um fundo de “segurança marítima”. Se implementada, essa cobrança poderia elevar o preço de importação de derivados em cerca de 0,3 % para os países consumidores, impactando, por extensão, os preços no varejo.
Impactos para o Brasil e a América Latina
### Energia e comércio exterior
Para o Brasil, a mudança no Ormuz tem implicações duplas. Primeiro, o país mantém contato estreito com os mercados de energia asiática, sobretudo por meio de exportações de etanol, biocombustíveis e, em menor escala, de petróleo da pré‑sal. Uma maior estabilidade no estreito reduz a volatilidade dos preços do barril, permitindo que as refinarias brasileiras planejem melhor suas aquisições de petróleo bruto, que historicamente chegam a cerca de 30 % do consumo interno.
Em segundo lugar, o aumento de navios no Ormuz pode pressionar os preços do frete marítimo global. O custo do charter de um petroleiro VLCC, que tem sido negociado em torno de US$ 30.000 por dia, pode subir 5‑7 % caso as taxas de passagem sejam impostas e, simultaneamente, a demanda por navios “suaves” continue alta. Essa elevação repercute nos custos de exportação de commodities brasileiras, como soja, minério de ferro e carne, que dependem de rotas marítimas transatlânticas, já que as companhias tendem a repassar parte desses custos aos compradores.
### Segurança energética da região
A América Latina observa atentamente qualquer mudança no fluxo de energia do Oriente Médio, pois muitos países ainda dependem de importações de petróleo e, cada vez mais, de GNL. O Peru, a Colômbia e o Chile têm buscado diversificar sua matriz, mas ainda importam cerca de 15 % do consumo de petróleo do Golfo. Uma passagem mais segura no Ormuz diminui a probabilidade de interrupções abruptas — que poderiam levar a aumentos de 10‑15 % nos preços internos de combustíveis.
Além disso, o acordo Irã‑EUA pode abrir espaço para negociações de segurança marítima envolvendo países latino‑americanos. A Marinha do Brasil tem participado de exercícios de cooperação com a Marinha dos Emirados Árabes Unidos e a Marinha dos EUA, focados em combate a pirataria e proteção de rotas. Uma maior presença ocidental no Oriente Médio pode gerar oportunidades de treinamento conjunto e de transferência de tecnologia para a frota brasileira.
### Investimentos e geopolítica
Do ponto de vista de investimento, a reabertura do Ormuz traz boas notícias para companhias brasileiras de energia, como a Petrobras e a EMAE, que mantêm contratos de fornecimento de óleo bruto e GNL com fornecedores do Oriente Médio. A previsibilidade de entrega pode acelerar projetos de expansão de refino e de termelétricas a gás, crucial para cumprir as metas de descarbonização estabelecidas no Plano Nacional de Energia.
Geopoliticamente, a ascensão do Irã como gestor da passagem poderia gerar novas alianças. Caso o Irã imponha tarifas, países que já mantêm relações estreitas com Teerã — como a Síria e a Venezuela — poderiam negociar condições preferenciais. O Brasil, tradicional parceiro da Venezuela em assuntos energéticos, poderia usar sua influência para negociar melhores termos de acesso, reforçando seu papel como mediador regional.
Perspectivas futuras: o que esperar nos próximos meses?
### Cenário 1 – Estabilidade com tarifas moderadas
Se o Irã implementar uma taxa de trânsito moderada (cerca de US$ 2.500 por navio) e mantiver os mecanismos de monitoramento acordados com os EUA, o fluxo de tráfego pode estabilizar entre 30 e 40 navios diários, recuperando aproximadamente 60 % da capacidade pré‑guerra. Essa situação garantiria menores volatilidades nos preços globais do petróleo e do GNL, beneficiando importadores e exportadores latino‑americanos. O Brasil, nesse cenário, teria ambiente mais favorável para negociar contratos de longo prazo com fornecedores do Golfo, reduzindo a exposição a flutuações inesperadas.
### Cenário 2 – Escalada de tarifas e disputa de influência
Caso Teerã veja na taxa de passagem um recurso fiscal estratégico, pode elevar o valor para US$ 5.000 ou mais, gerando um “choque de custo” nas cadeias de suprimento marítimas. Esse movimento poderia elevar os fretes em 10 % e fazer com que navios busquem rotas alternativas, como o Canal de Suez (com risco de congestionamento) ou até mesmo rotas ao redor da África do Sul, aumentariam significativamente o tempo de trânsito (de 20 para 30 dias). Tal mudança elevaria os preços de combustíveis na América Latina em até 0,8 % e impactaria a competitividade das exportações brasileiras.
### Cenário 3 – Reabertura total com gestão multilateral
Uma solução mais ambiciosa envolveria a criação de um órgão de governança multilateral, com participação de Irã, EUA, Reino Unido, China e países da OPEP, responsável por regular a passagem, garantir segurança e definir tarifas transparentes. Embora seja politicamente complexa, esse arranjo poderia trazer a estabilidade desejada pelos mercados e permitir, a médio prazo, a recuperação de 80‑90 % do tráfego pré‑guerra. Para a América Latina, significaria menor risco de interrupções e menores custos de importação, favorecendo a retomada de investimentos em energia limpa e infraestrutura portuária.
Conclusão
O recorde de 35 navios cruzando o Estreito de Ormuz na última terça‑feira simboliza mais do que um simples dado estatístico; representa o início de uma nova fase na dinâmica do comércio marítimo global, marcada por acordos de segurança que podem transformar a forma como o petróleo e o gás são transportados entre Oriente Médio e Ásia. Para o Brasil e para a América Latina, a reverberação desse evento ultrapassa as fronteiras marítimas: preços de combustíveis, custos de frete, estratégias de investimento e até a política externa podem ser redesenhados.
Acompanhar de perto as negociações sobre tarifas de passagem, os desenvolvimentos de segurança no estreito e as respostas dos principais players – Estados Unidos, Irã, China e os países produtores do Golfo – será crucial para que empresas, governos e consumidores brasileiros se antecipem aos possíveis choques e aproveitem as oportunidades que a nova realidade do Ormuz pode trazer. Afinal, em um mundo cada vez mais interconectado, a estabilidade de um estreito no Oriente Médio pode ser o ponto de partida para a estabilidade econômica de toda a América Latina.
Veja também
→ Ataque russo a Chernobyl: o que significa para a Ucrânia e para a América Latina?
Newsletter
Notícias importantes, direto no seu e-mail
Atualizações diárias sobre economia, finanças e mercados.
Fontes: Este artigo foi elaborado com base em informações de veículos jornalísticos de referência nacionais e internacionais, incluindo Valor Econômico, Folha de S.Paulo, G1 e agências internacionais de notícias. O conteúdo foi editado e complementado pela equipe do BrasilAgoraOmega.
Autor
Marcos OliveiraAnalisa os principais acontecimentos do cenário mundial e seus reflexos na América Latina.
Comentários
Leia também
MundoSenador dos EUA Lindsey Graham morre de dissecação da aorta: o que a morte do aliado de Trump implica para a política externa americana e para a América Latina
A noite de sábado (11) ficou marcada na política internacional com a notícia da morte inesperada do senador republicano Lindsey Graham, dos Estados Unidos. O Instituto Médic
Mundo‘Alcatraz dos Jacarés’ fecha: O que a derrota da prisão-florestal na Flórida revela sobre a política de imigração dos EUA
O governador ron DeSantis anunciou nesta quinta‑feira (25) o encerramento definitivo do centro de detenção chamado “Alcatraz dos Jacarés”, localizado em uma área de pântano da Flór
MundoQuem está liderando nas pesquisas para presidente em 2026? Descubra agora
A corrida presidencial de 2026 já tem protagonistas bem definidos, mas o cenário ainda pode mudar rapidamente. O agregador de pesquisas da BBC News Brasil reúne as últimas sondagen
MundoAlibaba na Justiça dos EUA: Por que o gigante chinês quer sair da lista de “empresas militares”
O Alibaba Group, um dos maiores conglomerados de tecnologia e comércio eletrônico da China, entrou com um processo contra o governo dos Estados Unidos na última terça‑feira (23) em
MundoAlibaba processa EUA por “acusação militar”: entenda o que está em jogo
O gigante chinês Alibaba entrou com ação judicial contra o governo dos Estados Unidos nesta terça‑feira (23) após ser incluído em uma lista do Departamento de Defesa que aponta emp